PROCURADORIA DA MULHER
Seminário aborda os benefícios e os conflitos de interesses que envolvem o ato de amamentar
Olga Arnt - MTE 14323 | Agência de Notícias - 18:40 - 30/08/2017 - Edição: Celso Bender - MTE 5771 - Foto: Marcelo Bertani
Noêmia Goldraich, nefrologista pediátrica
Noêmia Goldraich, nefrologista pediátrica

Como um ato tão simples como amamentar pode ter tanto impacto no desenvolvimento de uma criança e ainda repercutir na vida adulta? Esta foi uma das questões levantadas no Seminário Amamentação, Conflito de Interesses e Desenvolvimento Sustentável, promovido pela Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa na tarde desta quarta-feira (30). O evento, coordenado pela procuradora da Mulher, deputada Manuela d Ávila (PCdoB), reuniu no Plenarinho profissionais da saúde, ativistas e mães e pais interessados no tema.

Além de fonte de nutrientes, o leite materno é um medicamento personalizado, rico em células imunológicas e células-tronco. Isso explica, segundo o pós-doutorando em Epidemiologia Christian Loret de Mola, porque a amamentação reduz em 54% os casos de diarreia em 32% os casos de infecções respiratórias em crianças até cinco anos. Além disso, as crianças que mamam no peito ficam mais protegidas contra otite, má oclusão dentária, obesidade e diabetes tipo II. Isso sem falar que o tempo de amamentação está associado à performance dos adultos em testes de inteligência. Conforme o pesquisador, 12 meses de amamentação contínua significam um acréscimo, em média, de 3,4 pontos no escore de testes do quociente de inteligência.

Os benefícios não se restringem ao bebê, mas atingem as mães. De acordo com estudos citados por Mola, a amamentação reduz em 6% os riscos de câncer de mama invasivo e diminui também as chances de ocorrência de câncer nos ovários.

Padrão mundial
Apesar dos benefícios, o aleitamento materno não é uma unanimidade no mundo. A prática, que poderia salvar 820 mil crianças até cinco anos por ano, sofre influência da indústria alimentícia, enfrenta restrições impostas pelo mercado de trabalho à mulher, sobrevive à falta de políticas públicas e sofre um bombardeio de preconceitos abertos e velados. Conforme o I Mapa do Aleitamento Materno no Mundo, 37% da população mundial é amamentada de forma exclusiva até os seis meses de vida. A maioria dos países aumentou a taxa de amamentação contínua de 12 a 15 meses, mas não de forma exclusiva.

Nos países em desenvolvimento, segundo Mola, toda vez que o PIB dobrou, no período compreendido entre 1990 e 2015, a taxa de aleitamento até 12 meses caiu 10%. O fato, conforme o pesquisador, tem relação com a etapa de desenvolvimento em que o país se encontra, com o tempo da licença maternidade, com a existência ou não de campanhas de estímulo e com a presença da mulher no mercado de trabalho. “As mulheres ainda não tem o suporte necessário para amamentar. A estrutura social e a legislação não favorecem”, apontou.

Mudança de padrão
Depois de ser surpreendida com o número de crianças com pressão alta atendidas no ambulatório do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, a nefrologista pediátrica Noêmia Goldraich propôs a realização de uma pesquisa na rede municipal de ensino de Porto Alegre para verificar as condições de saúde dos alunos. O estudo, que envolveu 18 escolas municipais e verificou o peso, a altura e a circunferência abdominal de crianças de dois a seis anos, constatou que 40% delas apresentam risco, tem sobrepeso ou estão obesas e que 12% apresentam quadro de pressão alta em decorrência da obesidade e do consumo excessivo de sal.

As causas, conforme a nefrologista, estão relacionadas ao ambiente obesogênico e hipertensogênico que prevalece na sociedade “Antes, a obesidade era uma doença individual que acometia pessoas mais velhas. Agora, é um distúrbio do estilo de vida, que atinge pessoas cada vez mais jovens. Portanto, exige políticas públicas de enfrentamento E aqui reside o conflito de interesses, pois o mercado produz e deseja a doença”, apontou.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que o número de crianças com sobrepeso e obesidade saltou de 32 milhões em 1990 para 42 milhões em 2013 no mundo. A estimativa é de que, em 2025, existam 70 milhões de crianças com a doença. “O aleitamento materno exclusivo até os seis meses é a melhor forma de prevenir o sobrepeso e a obesidade. Ao mesmo tempo, é preciso evitar os alimentos ultra-apressados, que são ricos em calorias, pobres em nutrientes e fibras e contém excesso de sal e açúcar”, preconizou a médica.

Ela considera que a indústria alimentícia está acabando com as diferentes culturas alimentares em nome da globalização de seus produtos. “Estão criando no mundo inteiro hábitos em que as refeições não precisam mais ser planejadas, não é necessário o uso de talheres e nem a reunião à mesa”, apontou.

Publicidade
A mestra e doutoranda em Direito do Consumidor Lúcia Souza d Aquino associou a alimentação inadequada das crianças à exposição à publicidade e a falta de controle do Estado sobre os conteúdos veiculados. “Desde cedo, as crianças estão expostas a alimentos inadequados. Não podemos responsabilizar só as famílias por isso, pois a indústria não se preocupa e o Estado não fiscaliza”, sintetizou.

Lúcia considera inadequada toda a publicidade voltada para as crianças, pois elas ainda não entendem o que é e o que pretende a propaganda. “A publicidade cumpre o papel de conferir status social ao consumo. Obviamente, as crianças são mais vulneráveis diante deste apelo e precisam ser protegidas”, defendeu.

Ao encerrar o seminário, a deputada Manuela d Ávila (PCdoB) afirmou que as políticas públicas de estímulo à amamentação são importantes, mas é preciso falar sobre o tema, pois a mídia evita o assunto, e as mulheres que amamentam passam o tempo todo sendo desestimuladas. Ele lembrou ainda que é preciso vencer a desinformação e que o ato de amamentar está ligado à superação da desigualdade e da pobreza.

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