SESSÃO PLENÁRIA
Fernando Marroni destaca a história social e econômica da Colônia Z3 no Grande Expediente
Francis Maia - MTE 5130 | Agência de Notícias - 15:25 - 19/02/2020 - Edição: Letícia Rodrigues - MTE 9373 - Foto: André Lisbôa
A Colônia dos Pescadores Z3, em Pelotas, foi homenageada hoje (19), no Grande Expediente da sessão plenária, pelo deputado Fernando Marroni (PT), que destacou a organização da comunidade de pescadores profissionais artesanais que sobrevivem das águas da Lagoa dos Patos, na zona Sul do Estado. Quase centenária, a Colônia de São Pedro ou Arroio Sujo, como também é conhecida, foi fundada em 29 de junho de 1921 sob o abrigo da lei 2.544, de 1912, que criou as colônias de pescadores tuteladas pelo Ministério da Agricultura.
 
Vinculado à comunidade, o deputado Fernando Marroni contou a história da Colônia dos Pescadores Z3, surgida para cadastrar pescadores artesanais para uma possível convocação de guerra, tendo em vista o domínio das regiões litorâneas que poderia se tornar estratégia de defesa nacional. É na tradição oral contada pelos moradores que sobrevive a história do local, iniciado pela família Costa. Agricultores de Piratini, Tapes, Viamão e Rio Grande formaram o primeiro grupamento humano, vivendo em casas de madeira e palha e no início dos anos 50, chegaram grupos de Santa Catarina, vindos de Laguna, Itajaí e Florianópolis. Uma década depois, da Ilha da Feitoria, distante uma hora de barco da Colônia Z3, novo grupo liderado pela família Passos. E na década de 90, agruparam-se outros vindos das periferias urbanas e da zona rural de Pelotas.
 
“Caminhar pelas ruas da Z3 é revisitar os fundadores e moradores ilustres da comunidade”, disse o deputado, referindo-se a Olegário Costa, Ignácio Moreira Maciel, Inácio Motta e outros. A vida difícil do local sempre foi desafiada pelas contradições pois “a doce Lagoa só dá frutos quando salgada”, observou Marroni, valendo-se da canção de Kleiton & Kledir que menciona a lagoa como “mar de água doce”, mas a vida do pescador depende mesmo é do período salgado da lagoa para a safra do camarão.
 
Pesca artesanal, fé e propriedade
A seguir, detalhou o processo inicial de preparação e comercialização do peixe na Colônia Z3, época em que os barcos não tinham motor e os pescadores valiam-se do espinhel e das redes de linho para a pesca, tempo em que nem mesmo o camarão ou o siri tinham valor comercial. Os equipamentos de pesca evoluíram e dispõem até mesmo de GPS, explicou Fernando Marroni, mas “poucos pescadores têm acesso a essa tecnologia e trabalham ainda com equipamentos simples baseados na experiência tradicional de identificação de cardumes”. Relatou, também, os avanços do acesso ao local antes da primeira linha de ônibus, “uma verdadeira aventura” que exigia deslocamentos a pé, a cavalo, carroça ou barco de Pelotas ou do Balneário dos Prazeres até a Praia do Laranjal, distante 12 quilômetros da colônia, ou da Zona Portuária. Contam os antigos que os primeiros ônibus tinham as janelas protegidas apenas por cortinas e nos dias chuvosos, saíam dos atoleiros empurrados pelos viajantes.
 
Discorreu sobre a fé e a devoção dos moradores à Padroeira dos Pescadores, Nossa Senhora dos Navegantes, que, na década de 60, ganhou um santuário “construído pelos peixes”, uma vez que a comunidade atribuiu às boas safras as doações possíveis dos pescadores à obra. Antes, as missas e batizados eram realizados sob “a figueira”, frondosa árvore no centro da colônia. No dia 2 de fevereiro, a igreja com arquitetura açoriana abriga os fiéis para o início da procissão aquática em homenagem à padroeira, abrindo também a safra do camarão da Lagoa.
 
A propriedade da terra aos pescadores aconteceu na década de 60, quando o Coronel Pedro Osório, latifundiário da região, promoveu as doações num período em que novos grupos e famílias estavam chegando ao local. Meio século depois de constituída, a energia elétrica chegou à Colônia Z3, na primeira metade da década de 70, pouco depois da primeira linha de ônibus. A construção da estrada de ligação com Pelotas consagrou a urbanização da colônia e definiu a organização socioeconômica, disse Marroni da tribuna.
 
Ele também referiu a peculiar linguagem daqueles pescadores, que “despescam” (retiram) o peixe da rede “manjoada” (deixada um dia em espera para ser retirada no dia seguinte) e, quando tirados de seu sossego, promovem “saragaços” (bochinchos ou entreveros) pelas ruas. E da religiosidade surgem convicções, como a de que “não presta comer sem camisa” ou “rezar de luz apagada”.
 
Organização social e política
O comércio das peixarias é o que predomina por lá, com pescados da Lagoa como o siri, camarão e a tainha. Tem ainda a Carpintaria Naval Artesanal, exemplo da “capacidade secular de construção de embarcações, riqueza cultural passada de pai para filho”, registrou o parlamentar. E no artesanato local surge a expressão original da pesca, da praia e a rotina singular dos pescadores, com impulso promovido pela Emater para a economia local e responsável também pelo Grupo das Feiras do Pescador. Outro destaque é o atracadouro Divinéia, que serve para proteger os barcos de ventos e tempestades e de palco para os encontros comunitários a respeito da pesca. E no entorno da Praça Olegário Costa está a escola Raphael Brusque, que responde pelos projetos extracurriculares com repercussão social, cultural, histórica e ecológica, apontou Marroni. O Marítimo, ou Grêmio Cultural e Recreativo Marítimo Futebol Clube, cumpre o papel esportivo, promovendo o disputado campeonato colonial de Pelotas e revelação de atletas. Além da Praia do Junquinho, a colônia é também um santuário ecológico com resquícios de Mata Atlântica e sua exuberante fauna e flora.
 
Por último, o ex-prefeito de Pelotas registrou o perfil ativista dos pescadores da Z3, que através de luta obtiveram o direito ao seguro-defeso, e conquistaram a lei 15.223/2018 que instituiu a política estadual de desenvolvimento sustentável da pesca no RS e restringiu a pesca industrial. E também fez referência às melhorias do seu período de governo que repercutiram na colônia, como a qualidade do transporte coletivo, reforma na escola, e a água potável para “a promoção da saúde e a prevenção de patologias na comunidade”, com alcance na industrialização do pescado. Apontou, ainda, o trabalho do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia – CAPA Pelotas, e do Sindicato dos Pescadores, “espaço de luta e defesa dos seus direitos e de suas famílias”, finalizou. 
 
Apartes
Do plenário, manifestaram-se os deputados Edegar Pretto (PT) e Luis Henrique Viana (PSDB).  
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