ARTIGO
A Linguagem Inclusiva fundamenta a Democracia Inclusiva
Miki Breier* | PSB - 12:09 - 13/03/2014
Existe neutralidade na ação humana? A Linguagem e seus significados são inatos ou aprendidos? O que é aprendido depende ou é influenciado pela visão de mundo de quem ensina. A Leitura da realidade, que acarreta a existência de uma (e não outra) forma de Linguagem, depende do sujeito que analisa esta realidade. Mesmo se ela fosse neutra em si, quem a analisaria não possuiria tal neutralidade devido à sua inata humanidade. O humano não vê o mundo na sua integralidade. Mas, a partir dos instrumentos naturais e criados pela cultura constituídos para possibilitar à sua visão. O humano vê o mundo pela tradição, pela cultura, mídia, educação, arte, sensibilidade. Todas estas formas são legítimas, pois humanas, contudo, nenhuma consegue abranger a totalidade da realidade. Neste sentido, é humano conceber as coisas a partir da parcialidade que o próprio humano é.

A Linguagem vem do humano; que vê e sente parcialmente o mundo; que percebe a realidade dentro dos limites de sua própria humanidade. A Linguagem, de certa forma, é leitura de mundo provinda de um grupo humano e repassada para outro. Como poder-se-ia esperar imparcialidade daquele ou daquela que vê o mundo e o expressa pela linguagem a partir de sua classe social, seu grupo étnico, sua opção sexual e gênero; sabendo-se que todos estes elementos, além de influenciarem decisivamente seu modo de ver este mundo e comunicá-lo a outrem, dão conta, apenas, de parte e não do todo em relação à humanidade?

A Linguagem não é em si, nasce de algo, de alguém. Este alguém tem cor, raça, classe social, orientação sexual, interesses ideológicos, políticos e é daí que se originam os pontos de vista que constituirão os parâmetros linguísticos nos quais, consciente ou inconscientemente, estará inserido.
Se a linguagem vem do humano, é criada por ele, não parece estultice pensar que os preconceitos, virtudes, limitações e alcances, que são características essenciais dos humanos, estejam, naturalmente, impregnadas nela. Se a Linguagem vem do homem e da mulher, ela não poderia existir a não ser matizada com todas as características culturais que aquele homem e aquela mulher reais, situados no mundo, dentro de um momento histórico específico, foram , visceralmente, influenciados.

Simplista demais seria pensar e concluirmos que a questão de gênero por si só estaria resolvida, ao utilizarmos o masculino para designar os dois gêneros. Ingênuo demais seria supor que, na História, por mera coincidência, os grupos hegemônicos politicamente sempre tiveram, na linguagem, uma afiançadora dessa hegemonia. Em tempos de Machismos, a linguagem, machista, se materializa privilegiando apenas um gênero. Em tempos de desvalorização das crianças e adolescentes, estes não se veem, na linguagem, valorizados e reconhecidos, são “menores”, pseudoadultos.
Ocorre a mesma desvalorização, em muitos casos, via expressões da fala coloquial ou formal que são preconceituosas em nossos dias. Homossexuais, pessoas com deficiência física ou mental, negros e negras, povos indígenas não se veem valorizados em certas expressões de nosso vocabulário. Seria tudo isso mera coincidência?

A Linguagem interpreta, cria, “re-vela”,“des-cobre”, dá a entender o mundo e a realidade. A Linguagem possibilita que apreendamos o que está dentro de nós e compartilhemos com nossos iguais as impressões sobre o apreendido. A Linguagem não é neutra, pois humana. Então, quanto mais cuidado com as imagens, ideias implícitas ou explícitas, percepções limitadas de mundo (pois provindas de grupos e não do Todo), costumes e vícios ideológicos tivermos em relação à Linguagem, a equidade agradece.

Deve ser difícil para um não negro perceber que determinada expressão verbal citada, ingenuamente até, possa ser percebida como epidermicamente racista por um afrodescendente. Da mesma forma, para quem não é LGBT, não é Mulher, não é Tetraplégico, não é Cigano, não é Indígena, não é pobre ou favelado deve ser difícil perceber preconceitos implícitos, referentes a estes grupos, na linguagem que hodiernamente se usa. Para alguns, quem sabe, seria imprescindível a experiência de estar no lugar de para melhor entender um ponto de vista totalmente diferente do seu.

Quem sabe se este ou esta experimentassem, diariamente, a experiência de se viver num país ou mesmo num grupo social onde ele ou ela, pela linguagem, se sentissem uns “não-eu”, passariam a entender melhor. A experiência do não-eu, do zero, da invisibilidade vivida nas históricas relações sociais, econômicas e políticas, aliada a uma Linguagem que legitima, endossa, reforça este imaginário faz perceber como que o que é falado vai para além da fonética. O que é falado cria o real, estrutura personalidades, modos de se viver, estrutura ou desestrutura autoimagens, concepções de mundo. A Linguagem faz com que eu saiba o que eu sou, o que o mundo pensa que eu sou, como me constituí e o que o mundo é. Linguagem é poder! Aprendamos, como Freire já nos provocou, a dizer a Nossa Palavra.
 
*Deputado Estadual
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