ARTIGO
Vencer o Racismo é tarefa cotidiana de responsabilidade coletiva
Miki Breier* | PSB - 14:41 - 18/03/2014
“Negronas, pretas sujas e macacas”. Estas ofensas, usadas contra duas vizinhas, resultaram na condenação de um morador da Capital. E se pedíssemos para vários negros e negras manifestarem-se sobre as expressões e atos racistas que ouvem e sofrem em seu dia a dia?

Devemos perdão a um homem, Márcio Chagas, mas, também, enquanto sociedade, aos vários negros e negras, indígenas que, sistematicamente, são agredidos, verbal e fisicamente,  no Rio Grande do Sul, estado que se vê, errônea e ingenuamente, como não racista. O que aconteceu não foi ao acaso nem uma manifestação isolada de um grupo irrelevante de racistas. Mas, se repete, diariamente, com o povo negro. Vocês, que surpresos ficaram com as manifestações racistas, viviam num planeta no qual supunham que esta chaga já havia sido curada? Pensemos: quem a teria curado se nossa cultura seja pela educação, religião, mídia, humor, linguagem, pelo medo do politicamente correto continua, diariamente, a criar e reproduzir modos de pensar e ver a realidade eivados de machismos e racismos?

Quem poderia se espantar com a existência explícita de racismo? Alguém estaria tão fora do dia a dia de negros e negras que não saberia que estes são discriminados, inclusive, em nível institucional? Será que o número pífio nas estatísticas referentes ao poder aquisitivo e à dignidade em nível de saúde; o número de assassinatos, um verdadeiro extermínio de jovens e de mulheres negras, nunca lhes causou suspeita sobre o que poderia estar por detrás? Se, em nível de emprego, de ocupação dos espaços nos bancos estudantis e de poder se mantém velada obstrução à ascensão de negros; se, ideologicamente, as religiões de matriz africana ainda sofrem restrições e impedimentos aos seus cultos; se os quilombolas e povos indígenas lutam desgraçadamente para auferirem à legitimação de suas terras tomadas, desavergonhadamente, pelo poder instituído. Sabendo de tudo isso, quem poderia se espantar com o que ocorreu com Márcio Chagas?

Seria simplório responsabilizar a paixão clubística. Foram atos premeditados. Quem vai ao estádio com bananas? Foram atos consensualizados por quem tinham poder em nível de clube. E, por fim, são atos que expressam uma forma de ver o mundo que não se restringe aos que praticaram a infâmia. Mas que, por omissão, comodismo ou crença na impunidade são compactuados por muitos.

O Racismo, no Brasil, é cultural e institucional. Mesmo sabendo dos limites de toda a generalização, afirmo, didaticamente, que a família, a escola, alguns livros escolares, programas de humor, a linguagem, por exemplo, reproduzem formas racistas e preconceituosas de tratar com o humano. Isto não inocenta os atos deste ou daquele, mas coloca um espectro maior e gerador de preconceito.

A omissão e a autoimagem enganosa e superpositiva no que tange a pensarmos sobre nós mesmos - eu não sou racista, o racismo é problema dos outros, ele é racista e eu não – é o primeiro mal a extirparmos. O restante, repaginando convicções, agindo semelhante às manifestações que temos visto, com uma nova postura em relação à chaga do racismo, vamos, com a dor necessária a todo ressurgimento, mudando práticas. Mas, apenas a mudança dos corações não alterará a realidade do racismo se esta não se fazer ecoar nas instituições e na divisão efetiva do poder entre os povos, os gêneros, as etnias.
 
*Deputado Estadual
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