ARTIGO
A cultura do atraso
Pedro Westphalen* | PP - 15:48 - 15/05/2014

E tudo começa em casa. Quando a criança dorme demais e acaba se atrasando para a escola. Depois, já adulto, mantém o hábito e acaba perdendo o emprego por chegar frequentemente atrasado. “Mas o motivo foi o ônibus que não passou na hora determinada”, alega o mais novo desempregado. Ao botar a mão no salário desemprego resolve fazer um check-up médico para ver como anda sua saúde. Procura um médico do SUS. Depois de quase um mês aguardando para ser atendido ele consegue, finalmente, chegar no horário marcado. Mas teve que esperar mais um pouco, pois as consultas estavam atrasadas. Prescrição dos exames na mão, lá vai ele novamente para a fila do SUS. Mais espera. Consegue fazer os exames. Nova espera para conseguir a reconsulta médica. Consegue e sai de lá portando a receita com os remédios que deve tomar. Nova fila, desta vez para pegar os medicamentos. Conseguiu a maioria, pois alguns estavam em falta. Teria que retornar noutra data.

Esse é um exemplo do que acontece diariamente com milhares de brasileiros. É o embrião da chamada cultura do atraso. Que começa em casa e se estende por toda a vida. Talvez seja esse o motivo da paciência que a maioria dos brasileiros tem para a execução de obras e serviços públicos essenciais para as suas vidas. Já virou lugar comum a demora pela chegada da luz, do saneamento básico, do asfalto, do posto de saúde, do avião, do trem e muitas outras. Acostumamo-nos com a espera.

Mas como assim? Não temos pressa para nos desenvolver? Para melhorarmos nossa qualidade de vida? Ouvimos nossas autoridades dizerem que o Brasil segue celeremente em direção ao primeiro mundo, mas a lentidão com as obras essenciais se arrastam mostram que não é bem assim.  Entre a decisão política de executar uma obra até a sua inauguração demora anos, às vezes décadas. A ponto de torná-las, quando concluídas, praticamente obsoletas. Ser do primeiro mundo é ser como EUA e Japão, que reconstruíram cidades inteiras (New Orléans e Ishinomaki) em pouco mais de um ano, após terem sido praticamente destruídas por um furacão e um por tsunami.

E o mais incrível no Brasil é que nem mesmo as obras para a Copa do Mundo de Futebol, esporte considerado paixão nacional, serão completamente concluídas até o início da competição. No Rio Grande do Sul são inúmeras as obras vitais que não conseguem sair do papel. O metrô de Porto Alegre e a segunda ponte sobre o Guaíba são algumas delas. Isso sem falar nas obras importantíssimas que foram iniciadas mas que não se tem a menor ideia de quando serão concluídas, como por exemplo as duplicações das BRs 116, 290 e 386.

Por tudo isso é que devemos ter cautela com as manifestações eufóricas, típicas de período eleitoral. Se não conseguimos fazer o dever de casa como convencer o mundo da nossa pujança? Se for verdade que o gigante realmente acordou, como diziam os cartazes nos protestos de rua, temos que fazê-lo se movimentar e ir à luta. Sem perder mais tempo. Enquanto isso, quem sabe iniciamos a mudança fazendo com que nossos filhos acordem na hora certa?

*Deputado estadual

© Agência de Notícias
Reprodução autorizada mediante citação da Agência de Notícias ALRS.
© Agência de Notícias
As matérias assinadas pelos partidos políticos são de inteira responsabilidade dos coordenadores de imprensa das bancadas da Assembleia Legislativa. A Agência de Notícias não responde pelo conteúdo das mesmas.
Versão de Impressão
PESQUISA DE NOTÍCIAS
Termo
Período
   


TV Assembleia

Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul
Praça Marechal Deodoro, 101 - Porto Alegre/RS - Cep 90010-300 - PABX (51) 3210.2000

Horário de atendimento: das 08:30 às 18:30