ARTIGO
Obrigatória indignação contra o ódio e o totalitarismo
Adão Villaverde* | PT - 16:41 - 09/10/2015
O brutal desrespeito registrado no ambiente enlutado da despedida fúnebre de José Eduardo Dutra ultrapassa todos os limites de convivência democrática e de equilíbrio obrigatório nas relações humanas.

Panfletos ofensivos, jogados por tripulantes de um carro no local do féretro, revestem-se de destilações de ódio e intolerância, que atingem muito mais que a memória de Dutra, homem comprometido com as instituições públicas e dedicado ao partido político que ajudou a fundar e que presidiu, ou os sentimentos de seus parentes, companheiros e amigos.

Ofendem a própria essência da democracia sustentada na pluralidade de posicionamentos divergentes, em um país como o nosso com apenas três décadas de regime de plena liberdade de direitos constitucionais, reinstaurados em 1985, mas que, após 21 anos da danosa ditadura cívico militar do golpe de 1964 e seus antecessores, constituem o período mais longo sem sobressaltos arbitrários no Brasil.

Estas manifestações agressivas, no cenário de sepultamento domingo em Belo Horizonte, são as mais recentes de uma escalada embrutecedora que tem envolvido atos violentos em restaurantes, aeroportos, cinemas e mesmo no interior de aviões, vitimando pessoas ligadas, de alguma forma, a um pensamento contrário à manutenção dos privilégios das classes dominantes e a uma visão que condena as práticas de um sistema econômico deturpado, responsável maior pela injustiça social incrustada na história do país que, a muito custo, afinal, tenta-se mudar nos últimos anos.

Ao ser descoberto portando a revista Carta Capital, cuja linha editorial destoa da maioria da mídia neoliberal nacional, um cidadão gaúcho foi duramente agredido verbalmente, confinado e constrangido dentro de um avião, por um grupo que tinha vinculações com o ocorrido de viés totalitário pouco antes, no plenarinho da Assembleia Legislativa do RS, motivando o meu artigo “Uma vertente para o fascismo”.

Neste texto, situando o debate na Casa Legislativa como uma iniciativa parlamentar proposta justamente para se entender o ódio crescente nas redes sociais, ponderei que quando se discute, em evento público, a intolerância e o ódio que salta do mundo real para disseminar-se no anonimato do mundo virtual, presume-se que todos participem com espíritos desarmados, aceitando divergências e se manifestando adequadamente. “Se tiver diferenças, que dê opinião, sem apelar à agressão e ao desrespeito aos interessados”, grifei.

Naquele encontro, desconsiderando a legitimidade das diferenças, um grupo se esmerou em cercear opiniões e interditar a atividade, demonstrando na prática presencial o que faz nas redes, em manifestação explícita de supressão do pensamento do outro.

Na democracia, não se pode tudo, muito menos negar ao outro o direito do contraditório, ainda mais com práticas fascistas e regressivas. É como se perguntava a filósofa Hannah Arendt, em Origens do totalitarismo: “como aceitarmos o inaceitável, a inutilidade da existência e a recusa ao outro?”

Sabemos que a intolerância é vizinha do ódio e parente da violência, que ultrapassa, com perversa naturalidade, todos as linhas demarcatórias da tolerância e da reverência aos diferentes.

Omitir-se ou justificá-la, assegurando-lhe impunidade, é acumpliciar-se a ela.

Devemos evitar que este fundamentalismo desprovido de conteúdo, que faz uso de métodos com opção pela violência, ocupe o lugar das legítimas tradições plurais e democráticas, tão duramente construídas nas últimas três décadas. Devemos, portanto, repudiá-lo venha de onde vier.

Devemos denunciar e nos indignar sempre, permanentemente, para não permitir o caminho aberto para o interdito das sempre salutares pluralidade de ideias.

Ou autorizaremos que se instale, no país de todos os brasileiros democratas, o arbítrio e a prepotência do delito de opinião, que fere as liberdades individuais e coletivas e alveja de morte o Estado democrático de direito.

* Engenheiro, professor e deputado estadual (PT-RS)

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