ARTIGO
Mil dias da inaceitável tragédia da Kiss
Adão Villaverde* | PT - 11:09 - 04/11/2015

Completados, no dia 4, mil dias da inesquecível tragédia que interrompeu 242 prodigiosas vidas e deixou mais de 600 feridos, além de violentar famílias, traumatizar comunidades e repercutir mundialmente, o incêndio da boate Kiss ocorrido em 27 de janeiro de 2013, em Santa Maria, emblematiza um atestado cruel do individualismo e do descaso muitas vezes de nossa sociedade.

Simboliza, também, o egoísmo coletivo, escondido na emoção inicial conjunta do primeiro momento de ardor vertido em caudalosas lágrimas, mas que se esvai, como a fumaça do próprio sinistro, apagando-se processualmente com passar de pouco tempo.

Não me refiro apenas à impunidade que impera até hoje, após mil dias, soando como um deboche institucional à dor dos sobreviventes e dos familiares das vítimas.
E nem ao manto de esquecimento com que muitos veículos de comunicação cobriram as decorrências do episódio, depois da efervescência emotiva inaugural que o horror inusitado da mortalidade ampliada despertou nos seus ouvintes, leitores e telespectadores.

A própria descaracterização posterior da legislação de segurança e prevenção contra incêndios, elaborada em comissão especial do Parlamento, que tive a tarefa honrosa e a responsabilidade de presidir ainda em 2013 e, as insistentes tentativas de abrandá-la são resultado desse sentimento, que tenta eliminar más lembranças da memória, para evitar o compartilhamento da culpa de todos pela conivência com a omissão com que se trata o caso até hoje.

Na tribuna do Legislativo, acentuei, repetida e recorrentemente – mas em vão – sobre os graves riscos da flexibilização da chamada Lei Kiss, que teve o rigor original abatido por emendas parlamentares. Sobretudo a partir de pressões de setores, propondo excepcionalidades que legitimam o jeitinho , condenado na legislação anterior, pela defesa de interesses econômicos particularistas ou mesmo inconfessáveis. Mesmo que na última tentativa tenha sido vetada pelo governador Tarso, na volta a apreciação no parlamento, infelizmente e irresponsavelmente foi aprovada.

De tudo, ficou a dúvida, se o que importa mesmo, é a preservação da vida humana.

Ou se, na verdade, ela vale menos que alguns metros quadrados de construções que revertem em tributos arrecadatórios, lucros imobiliários ou ganhos de alguns em detrimento do maior valor humano que são as vidas das pessoas.

*Professor, engenheiro e deputado estadual (PT-RS)

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