ARTIGO
Democracia violentada reforça resistência
Adão Villaverde* | PT - 13:57 - 20/04/2016

A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa
– Karl Marx, no prefácio de “O 18 Brumário, de Louis Bonaparte”

O dia 17 de abril entra para a história como uma data marcada pela tristeza e consagra a vergonha pela maior violação da democracia recente, que foi duramente reconstruída no Brasil.

Só diferente da quartelada de 64 pela ausência de coturnos e fardas verde – oliva, o golpe de hoje é urdido pelos mesmos punhos de renda das classes dominantes do passado. Carrega o mesmo apoio da mídia defensora dos interesses de seus patrocinadores, agora renovada pelos avanços tecnológicos e pela avassaladora penetração nos lares brasileiros incutindo, no imaginário popular, a criminalização da política, do PT e do campo na esquerda.  E também se articula com setores do Judiciário que, lamentavelmente, optaram pela via da politização, maculando a magistratura brasileira.

Não lhes interessa respeitar o Estado Democrático de Direito. Não lhes constrange rasgar a Constituição, nem decretar nulo o resultado das urnas.

Não lhes incomoda autorizar um governo ilegítimo que não foi eleito pelos cidadãos e que somente estaria chegando ao poder através de um golpe na constituição.

Quando estão em jogo os riscos aos seus benefícios, escrúpulos e pseudo-honradez são só palavras vazias, próprias apenas para retóricas de ocasião.

Esta elite com contas secretas em paraísos fiscais, mansões em áreas públicas de preservação ambiental, que sonega cometendo crime fiscal e tem a certeza de se postar acima da lei, portanto, com passaporte para a impunidade, se arvora e se organiza sempre que governantes democratas começam ampliar direitos e conquistas para os que mais precisam. Quitando dívidas históricas com um povo secularmente destituído de igualdade social e carente de distribuição de renda, cujas submissão e miséria só persistem, para manter eternamente inalteradas as benesses do andar de cima.

São forças conservadoras fiadoras de um sistema político compreensivelmente imune a reformas tão imprescindíveis, mas ultrapassado, vergonhoso e contaminado pela corrupção, alianças espúrias, partidos de aluguel, caixa 2, propinas públicas e privadas, militâncias pagas, promessas midiáticas, mentiras do marketing, culto ao voto em personagens, boleiros, justiceiros, charlatões e tantos outros – nunca em programas partidários e convicções ideológicas.

E que mostrou sua face mais patética no desfile de parlamentares declarando “Sim” no plenário da Câmara dos Deputados, louvando Deus, suas famílias, filhos, tias (e até marido prefeito preso no dia seguinte por desvio de dinheiro público). E, ainda, seus currais eleitorais e seus patrocinadores, mas jamais referindo-se a quaisquer valores e princípios éticos. E muito menos considerando os argumentos jurídicos em que a acusação do impeachment se ampara: pedaladas fiscais e decretos de créditos suplementares.

Assistimos o teatro da farsa tragicômica da escória da política, comandada por um revanchista vingativo, réu de processos por recebimento de propina que não tem as mínimas condições morais de conduzir um pedido de impedimento sem crime algum de responsabilidade. Mas, todos sabemos, aríete do capitão do golpe, o conspirador Temer.

O dia 17 é, por outro lado, também um marco simbólico na resistência democrática que se renova e fortalece com a indignação dos mais vulneráveis, dos mais oprimidos, dos mais discriminados, das minorias, dos que não se acovardam nem temem arriscar-se pelos seus poucos avanços, ainda insuficientes direitos e esparsas conquistas – que já foram chamados do “pior que temos” por um político gaúcho reacionário e racista- mas ao lado dos quais sempre estaremos.

Com esta gente sofrida que não desiste nunca, seguiremos ocupando as ruas e disputando os espaços institucionais, mostrando toda nossa inconformidade e indignação, com mais esta violência à democracia.

É tempo de enfrentamento intenso e, do mesmo modo, é momento também de reflexão profunda sobre a necessária reestruturação da política, de verdadeiras reformas tributária, agrária, econômica e dos meios de comunicação.

Só assim, com luta permanente e mudanças severas, o Brasil será um país melhor e mais justo para todos e para as gerações que nos seguirão.

Não fugiremos da luta, do compromisso com a Constituição e da defesa do Estado Democrático de Direito.

A História será implacável com os golpistas e os traidores.

 * Professor, engenheiro e deputado estadual (PT/RS)

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