ARTIGO
O empobrecimento (de ideias) do Rio Grande
Juliano Roso* | PC do B - 14:10 - 27/07/2016

Lá pelos idos da década de 1930, o escritor Cyro Martins, nascido na fronteiriça Quaraí, começou a escrever a Trilogia do gaúcho a pé. Da primeira obra, Campo Fora, de 1934, até Estrada Nova, de 1954, que fechou o ciclo junto com Sem rumo, de 1937, foram 24 anos. Em duas décadas, o retrato de um mesmo problema: o empobrecimento do gaúcho clássico que ao deixar a vida no campo se deparava com a pobreza da cidade e sua urbanidade e possibilidades utópicas.

Em todas as páginas da obra do escritor, o retrato do empobrecimento do Rio Grande dá o tom. Especialmente da área fronteiriça, carregada de simbologias para a construção da identidade do gaúcho. Hoje, no campo político, nos deparamos com esse mesmo drama retratado por Cyro lá na longínqua Quaraí há décadas. Mas no momento atual, o empobrecimento se dá no campo de ideias plausíveis para o desenvolvimento do Rio Grande.

Em mais de  um ano de mandato, o governo do Estado apresentou para o Parlamento Gaúcho poucos projetos para reverter a crise como aumento de impostos (ICMS), redução do teto do pagamento das RPV’s e a antecipação dos créditos da General Motors. Irão eles resolver a crise? Mas onde estão as ações que verdadeiramente podem ajudar a mudar o rumo do Rio Grande? Que ideias e iniciativas podem realmente fazer a diferença e não apenas penalizar o bolso da sociedade gaúcha?

É bom recordar que na obra de Cyro Martins, o gaúcho ia desfazendo-se, ano após ano, de pedaços de terra para sobreviver e prover sua família. Vivenciando atônito a mudança do mundo em sua volta. E assim sinaliza comportar-se o governo atual nesse momento, com a ideia de se desfazer de joias da coroa dos gaúchos, como o Banrisul, a CEEE, a Corsan, a CRM e a Sulgás.

Assim como Cyro Martins registrou a decadência do gaúcho no século passado, nós acompanhamos o acanhamento de ideias para mudar esse destino de pobreza e privações que se avizinha logo ali atrás da porteira. Melhorar a vida do povo gaúcho é meta e obrigação de todos. Mas para isso precisamos pensar em melhorias concretas e que possam fazer a diferença. Por isso, a leitura da trilogia de Cyro, e seu significado, se faz necessário e atual para que possamos refletir sobre a necessidade de evitar o atraso de nossa sociedade.

*Deputado estadual

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