ARTIGO
Não há ‘oposição propositiva’ a quem não ganhou nas urnas
Adão Villaverde* | PT - 17:30 - 26/09/2016

A ideia conciliadora e respeitosa de uma “oposição propositiva” não se justifica diante de quem não ganhou as eleições nas urnas e usurpa a presidência da República no nosso país. Digo mais: não existe mediação frente a este golpe de 2016; é preciso derrubar o governo ilegítimo de Temer que apropria-se da representação de uma presidenta legitimamente eleita pelo voto majoritário da população brasileira.

Esta opinião, de defesa da Constituição e Estado Democrático de Direito não é só minha, como ficou evidenciado no encontro que promovemos sobre o tema É Golpe, sim! (Terceiro turno sem urnas, o ataque aos direitos sociais e o entreguismo). Lotando o Plenarinho da Assembleia Legislativa no último dia 21, unificamos uma reflexão profunda, acompanhada do repúdio à farsa do impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff, que antecipou um clima de acirramento da repressão que vai exigir muita resistência dos defensores da democracia no Brasil.

Esta ideia resume, de certa maneira, as manifestações dos cientistas políticos Céli Pinto, Benedito Tadeu César, Ilton Freitas e deste autor do livro, cujo projeto formatado como edição compartilhada apresentamos no evento.

A professora Céli salientou que o momento é trágico e sem muita esperança para o país. “A endireitização do mundo político não dá motivos para otimismo, ao contrário, é caso de pessimismo. Mas temos que reconstruir a esquerda, juntando nossos cacos”, acentuou ela.

“A complexidade do golpe que ocorre em toda a América Latina decorre do fato do capitalismo precisar rearticular a acumulação do capital. “Hoje mesmo Temer está vendendo pedaços do Brasil a empresários nos Estados Unidos”, flagrou.

Para ela, a classe média, a burguesia e as elites que se acostumaram a ser desiguais, pela primeira vez na história, viram que nos últimos 14 anos o governo mexia nisto. “Assim para a burguesia qualquer coisa passou a ser melhor que o PT. O Judiciário e MP se apequenaram porque seus integrantes reproduzem as camadas mais privilegiadas do país e reproduzem seus interesses elitistas, sem relação com o povo brasileiro”. Além do golpe, para ela, “é gravíssima a destruição do sistema partidário, que pode reprisar os 20 anos da corrupção de Silvio Berlusconi na Itália, após operação chamada ‘mãos limpas’”.

Para Tadeu, é preciso não se deixar abater, como diz Lula, permanentemente machucado pela perseguição implacável da direita e da mídia. “O golpe vai se aprofundar ainda, mas tem vida curta”, apostou ele, lembrando que a traição sorrateira surgiu sem que se desse conta da maquinação que era feita em torno da rearticulação de uma maioria parlamentar, conduzida pelo corrupto Eduardo Cunha e o interino Temer, para derrubar Dilma, atacar o PT e eliminar Lula.

“Achávamos que se podia jogar o jogo democrático de maneira civilizada para governar o Brasil”, analisou ele. “Mas estávamos enganados com os poderosos de sempre, com seus interesses e privilégios contrariados pelos avanços dos trabalhadores e dos mais necessitados de políticas públicas. Agora, temos que ter força social para refundar o Brasil e ter condições de avançar e consolidar conquistas”.

Segundo Ilton, o que aconteceu no Brasil faz parte das tensões de um mundo tendente à multipolaridade. O cientista assinalou que o presidente da China afirmou, no mês passado, que o mundo está à beira de uma mudança radical com nova ordem mundial, emergindo da decadência da economia norte-americana e do esfacelamento europeu. A China, para ele, já ultrapassou o que chama de “império anglo americano” em níveis de desenvolvimento. “Os acordos dos chineses com a Rússia geram enorme tensão multipolar que leva o império decadente a atacar desesperada e perigosamente”.

Entre os “pecados” de Lula e Dilma, ele listou a derrota que o ex- presidente impôs à Alca; não autorização de base militar dos EUA em Alcântara em 2005; implantação de políticas afirmativas; criação de mercado de consumo de massa; descoberta do pré-sal em 2008; investimento em tecnologia; independência nas relações internacionais; implemento de políticas de desenvolvimento industrial; ampliação das reservas internacionais; estimulo à internacionalização das empresas brasileiras e uso dos bancos públicos para pressionar taxas de juros.

A presidenta do Cpers Sindicato, Helenir Schurer Aguiar, ressaltou que poderá acontecer “um golpe dentro do golpe, sem, naturalmente a participação do povo novamente”. Para os poderosos, foi imperdoável a ação de uma presidenta mulher que estimulou cotas étnicas e incentivou o protagonismo dos mais pobres, diminuindo as empregadas domésticas da burguesia. Por isso, com seu grande poder de alcance, a mídia fez uma lavagem cerebral na população que resulta em uma intolerância e um ódio inacreditáveis.

Para o presidente da CUT/RS, Claudir Nespolo, ninguém respeita governo fraco, em sua correlação de legitimidade. O dirigente sindical chamou a atenção para o mais brutal ataque aos direitos dos trabalhadores que vão “pagar o pato da Fiesp”. Os empresários sequer escondem a pauta que é uma tentativa de volta à escravidão, mas a inteligência do golpe é determinada em nível mundial”, asseverou ele. Para Claudir, a narrativa do golpe está em disputa, daí a importância da “outra versão” ser registrada em livro.

No início do encontro, aliás, apresentamos a estrutura da publicação (que está no prelo da Editora Sulina) que aborda três eixos centrais. São eles, o golpe em suas múltiplas facetas nacionais e internacionais, a oposição ao neoliberalismo no RS e o entreguismo contido na dependência tecnológica do país.

O livro deve sua inspiração à amiga Margarete Moraes, que sugeriu registrar os acontecimentos que levaram ao golpe no Brasil em 2016 e instalaram no poder o governo ilegítimo pronto a impor o retrocesso nas conquistas e nos direitos dos trabalhadores.

Por isso tudo, não há razão para respeitar adversários políticos que traíram compromissos éticos e galgaram o poder sem a legitimidade do voto, através de um golpe que envergonha todos os democratas.

*Deputado estadual (PT)
© Agência de Notícias
Reprodução autorizada mediante citação da Agência de Notícias ALRS.
© Agência de Notícias
As matérias assinadas pelos partidos políticos são de inteira responsabilidade dos coordenadores de imprensa das bancadas da Assembleia Legislativa. A Agência de Notícias não responde pelo conteúdo das mesmas.
Versão de Impressão
PESQUISA DE NOTÍCIAS
Termo
Período
   


TV Assembleia

Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul
Praça Marechal Deodoro, 101 - Porto Alegre/RS - Cep 90010-300 - PABX (51) 3210.2000

Horário de atendimento: das 08:30 às 18:30