ARTIGO
“Diálogos criminosos”, relações perigosas
Adão Villaverde* | PT - 15:00 - 24/05/2017

Depois que aliados do governador gaúcho José Ivo Sartori foram flagrados em “diálogos criminosos” gravados por empresários investigados, em meio às espetacularizações midiáticas das delações premiadas, a agenda neoliberal de desmonte do Estado ficou definitivamente comprometida, tanto em nível nacional quanto em níveis estadual e local. Agora, os ataques aos direitos dos trabalhadores devem ser barrados pela forte mobilização popular provocada pela divulgação de áudios que estarreceram a opinião pública e repercutiram internacionalmente.

Os reflexos da denúncia dos executivos do grupo JBS (especialmente a gravada no encontro clandestino na calada da noite na residência presidencial) que produziu uma crise política institucional e de regime sem precedentes, atingiram a tramitação das antirreformas de Temer e também, por decorrência, o processo da continuidade do chamado pacote de maldades de Sartori no Parlamento gaúcho. Sobretudo porque eles são aliados e parceiros desde as suas eleições, e produziram e reproduziram as mesmas modelagens programáticas e de gestão, quais sejam, ataques ao funcionalismo e o desmonte das funções públicas para a população.

O governador já reconheceu que o RS ainda não tem previsão de aderir ao Plano de Recuperação Fiscal dos Estados, sancionado na sexta-feira, dia 19, pelo ilegítimo Temer. Seus próprios aliados já admitiam que a base governista não conta com o apoio suficiente no Parlamento para aprovar as medidas exigidas pelo ilegítimo e golpista Temer. Pois se não bastasse sua natureza draconiana, as condições impostas pelo governo nacional para esta adesão já dificultavam a adoção do plano, os diálogos criminosos prejudicam e comprometem ainda mais essa situação de relações perigosas, que se ampliam do Planalto ao Piratini e chegam ao Paço Municipal de Porto Alegre.

Aqui, na cidade, o prefeito Nelson Marchezan Júnior, aliado de Sartori, Temer e Aécio Neves (afastado do cargo de senador enlameado pela corrupção da JBS) também não tem condições de prosseguir com seus projetos neoliberalizantes, que atacam os servidores públicos e desmontam a estrutura de serviços que a capital sempre teve. Ao falhar como porta bandeira dos interesses do capital financeiro, que determinam as antirreformas trabalhista e da previdência, acenam com privatizações, entregam a exploração do pré- sal, comandam o ataque ao setor público e pregam o Estado desconstruído, Temer acabou contaminando todos com quem mantém laços de afinidades políticas e alinhamento ideológico. E o brado avassalador dos brasileiros que paralisaram o país na histórica greve geral do dia 28 de abril certamente assustou as elites e os poderosos que articularam a aliança perversa que derrubou a presidenta legítima sem crime de responsabilidade. Mas, acima de tudo, alertou a república financista que representa os interesses estrangeiros, pois o grito repercutiu no mundo inteiro e no tambor da Europa retumbou no Le Monde francês com o cálculo de 40 milhões de resistentes ativos ao governo ilegítimo.

Que seguidor do manual capitalista investe em um país de trabalhadores descontentes, com uma sociedade descrente e prestes a incandescer em chamas sociais, com um presidente golpista, ilegítimo e desmoralizado? Crescentemente repudiado em pesquisas de opinião pública, sem mais serventia, mais um que vai para o descarte, Temer foi julgado, condenado e abandonado celeremente pela chamada mídia monopolista, para a qual, agora, sua saída do Jaburu é mera questão de tempo. Como diz a cientista política Celi Pinto, de forma esclarecedora, seria muita ingenuidade pensar que “a Rede Globo de TV passou a divulgar conversas suspeitas de Temer e a falar abertamente em renúncia do presidente em decorrência de um surto de responsabilidade pública e de preocupação com a moralidade nacional. Basta prestar a atenção nos comentaristas: todos referiram que Temer estava sem condições de fazer aprovar no Congresso as reformas, motivo de descontentamento da equipe econômica”.

No mesmo diapasão, o ex-governador Tarso Genro acentua que a mídia caiu em uma armadilha em que é obrigada a tomar uma posição pública “como se fosse um desague natural de posições anteriores. É uma espécie de mea-culpa­, já que as acusações contra Temer e PSDB são infinitamente mais insustentáveis do que as que pesam contra Lula, que vinha sendo o alvo preferencial do noticiário”. É lógico que não foi descartada do roteiro já traçado – que a mídia segue diariamente, criminalizando a política e as instituições, jogando fermento no fascismo – a tentativa de inviabilizar Lula como candidato à presidência, embora o acompanhamento público, reverberando nas ruas de todo o país, de sua inquirição pelo juiz de Curitiba, tenha enviado uma contundente advertência aos golpistas. Mas enquanto o governo agoniza, sem nenhuma legitimidade que possa amparar sua queda, impõem-se aos democratas, aos progressistas, aos trabalhadores, a todos que lutam por um país justo e igualitário assumir seu protagonismo, ir às ruas bradar “não às antirreformas”, “fora Temer! e “eleições diretas já”.

É preciso que o Brasil recupere a dignidade, restaurando a legitimidade democrática perdida no golpe de 2016. Esta conquista, porém, depende da dedicação e do envolvimento de todos nós. Do contrário, continuaremos à mercê dos oportunistas de sempre e dos já conhecidos predadores, sejam eles quem forem, de setores da política, do empresariado, de certos burocratas do setor privado e público e, principalmente, da mídia monopolista. Pois de nada adiantará que representações e gestores sérios e honestos defendam e exercitem a boa política, se continuar prevalecendo a intervenção daqueles para os quais a política continuará sendo, permanentemente, um grande negócio.

* Deputado estadual

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