GRANDE EXPEDIENTE
Deputados protestam no Grande Expediente pelo assassinato da vereadora Marielle Franco no RJ
Francis Maia* - MTE 5130 | Agência de Notícias - 16:00 - 15/03/2018 - Edição: Sheyla Scardoelli - MTE 6727 - Foto: Marcelo Bertani
Deputada Juliana Brizola compartilhou espaço com demais deputados
Deputada Juliana Brizola compartilhou espaço com demais deputados

O Grande Expediente desta quinta-feira (15) foi compartilhado pela deputada Juliana Brizola (PDT) com as bancadas do PSol e REDE para registrar o protesto pelo assassinato, ontem (14), no centro do Rio de Janeiro, da vereadora Marielle Franco, do PSol Negra e ativista da luta das mulheres da Favela da Maré, Marielle foi uma das vereadoras mais votadas na última eleição municipal. Recentemente ela assumiu a relatoria da comissão da Câmara de Vereadores que acompanha a intervenção militar no Rio de Janeiro. Nos últimos dias, a vereadora denunciou pelas redes sociais a impunidade de policiais militares que atuam na Favela de Acari e ameaçam moradores, praticam ilícitos e matam jovens negros.

Juliana Brizola
Primeira a se manifestar, a deputada Juliana Brizola (PDT) recapitulou a cronologia da intervenção militar no Rio de Janeiro para chegar no assassinato, ontem (14), da vereadora Marielle Franco, do PSol. Destacou a manifestação do Comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, dia 20 de fevereiro, de que “os militares precisam de garantias para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade no futuro”. Oito dias depois, Marielle Franco assumiu a relatoria da comissão para acompanhar a intervenção federal, “fiscalizar, visitar territórios, colher dados e organizar reuniões”. No dia 11 de março, a parlamentar denunciou a morte de dois jovens e a truculência policial durante operações na Favela de Acari, na Zona Norte do Rio, jogados num valão, com invasão de residências pela polícia militar, fotografando identidades e aterrorizando populares. Três dias mais tarde, Marielle Franco e seu motorista, Anderson Pedro Nunes, são assassinados.

Juliana lembrou a frase emblemática de Darcy Ribeiro – “ao não se construir escolas, faltarão recursos para construir presídios no futuro” – para referir o crime brutal como a banalidade da violência cotidiana contra policiais, estudantes, operários, empresários, e também contra “uma lutadora pelos direitos do povo”. A parlamentar alertou que “a brutalidade social não é somente uma realidade do Rio de Janeiro, está presente entre nós e o Estado não apresenta soluções para a criminalidade”. Destacou os 500 CIEPs construídos por Leonel Brizola nos dois mandatos de governador no Rio, o projeto das escolas de tempo integral destruído pelos governos posteriores. “A sociedade foi tomada pelo crime organizado e com poderes de Estado. No Rio, a criminalidade criou um Estado paralelo”, apontando que parte daqueles governantes hoje estão no Presídio de Bangu. Mas o estado paralelo, disse, está infiltrado em todas as camadas da sociedade, “não estão nos morros, residem nos melhores bairros e integram o comando do Estado”, referindo ainda que através de poderes absolutos “os que questionam, denunciam e se tornam perigosos, são descartados”.

Juliana alertou que o fechamento de escolas, como vem acontecendo no Rio Grande do Sul, “desestrutura as escolas existentes, não remunera e não valoriza os professores, diminuindo os investimentos em educação”, prevendo que “o Rio Grande do Sul de amanhã, será o Rio de Janeiro de hoje”. Abandonada, a juventude é jogada ao alcance do crime, garantiu, com imenso custo social. A propósito, ela registrou a última postagem de Marielle, um dia antes de sua morte, a respeito de homicídio de jovem pela PM em Acari, “quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, foi a última pergunta da vereadora carioca. “O estado paralelo, associado ao estado Constitucional, matou uma mulher de luta, negra, favelada como tantas outras mulheres cariocas assassinadas pela brutalidade social”, afirmou a deputada pedetista, alertando que “o Rio de Janeiro não é uma ilha distante do Brasil. É o retrato da sociedade brasileira”. Observou ainda que “não se produz cidadania sem ação efetiva do Estado”. Por último, Juliana Brizola recitou poema de Elis Regina que retrata o silêncio cúmplice dos covardes enquanto assistem as injustiças.

Pedro Ruas
Segundo deputado a dividir a tribuna com Juliana Brizola, Pedro Ruas (PSOL) disse que não é aceitável que a morte seja o preço para política de enfrentamento dos poderosos a favor do povo. “A morte pode estar no caminho de quem faz política séria a favor da população, mas não é necessária. No entanto, tem se tornado uma realidade dura e insuportável na trajetória de muitos militantes”, frisou.

Para ele, a execução de Marielle Franco soa como um recado “de cúpulas e milícias que acham que tudo podem e não devem respeito a nada e a ninguém”. “O assassinato de uma mulher negra, que veio da favela, estudou Sociologia e fez mestrado, no mês da Mulher, parece jogar na nossa cara que nunca teremos direitos. No entanto, o sacrifício de Marielle será nosso guia, nosso norte na luta da qual não desistiremos”, assegurou.

O assassinato da vereadora e de seu motorista, na opinião do deputado, impõe ao Brasil reflexão e mudança. “Hoje, o mundo inteiro discute esta barbárie, Sabemos a obrigação que temos diante desta tragédia e temos muito claro em nossa mente uma sentença definitiva: Marielle Franco presente!”, finalizou.

Regina Becker Fortunati
A deputada da REDE igualmente ocupou o espaço do Grande Expediente em homenagem à vereadora do PSol-RJ, Marielle Franco, e ao motorista Anderson Pedro Gomes. Ao começar seu pronunciamento, leu mensagem da presidente nacional da REDE, Marina Silva, em solidariedade às vítimas e suas famílias e exigindo, ao mesmo tempo, a apuração dos fatos. “Estamos a muitos quilômetros do Rio, mas choramos a morte desta brava mulher, negra, que emergiu da Maré. Era uma lutadora pelos direitos humanos e vinha denunciando o acirramento da violência policial nas comunidades fluminenses a partir da intervenção militar na segurança pública do Estado”, lembrou Regina.

Marielle era socióloga com mestrado em Administração Pública e presidente da Comissão da Mulher da Câmara. Com 46.502 votos nas eleições de 2016, ela foi a quinta vereadora mais votada do Rio e, por certo, seu currículo incomoda a muitos, no Rio e fora dele. Em 11 de março, a vereadora usou seu perfil no Facebook para denunciar a morte de dois jovens e a truculência policial em ações na zona norte do Rio de Janeiro. Na publicação, ela acusa a PM de matar e jogar os corpos de dois jovens da comunidade em um valão. “Lamentamos esta intervenção militar no Rio, que alguns chamam de higienização. De outra parte, fica o questionamento: se há verbas para ações como esta, onde estão os recursos à educação, à assistência social?”, ponderou.

* Colaboração de Celso Bender e Olga Arnt

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