ARTIGO
Desapego à democracia, à verdade e ao trabalho
Valdeci Oliveira* | PT - 10:33 - 06/08/2021 - Foto: André Lisbôa

“Jamais diga uma mentira que não possa provar”.  A máxima, de autoria do saudoso Millôr Fernandes, um dos mais ácidos e lúcidos brasileiros que transitou pela seara das letras no século passado, foi utilizada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e também ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, como resposta à coleção de inverdades ditas pelo presidente da República na semana passada.

Na quinta-feira (29), o chefe do Executivo Federal utilizou suas redes sociais para desferir talvez o mais duro ataque às urnas eletrônicas e ao processo eleitoral brasileiro feitas por ele até aqui. Coincidentemente, o fez em um momento em que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga fortes indícios de corrupção e as omissões do governo brasileiro na condução da pandemia, desnuda a cada dia que passa o conjunto de insensibilidades, falta de humanidade e ausência de apreço pela vida do nosso povo.

A radicalização do discurso do presidente também chega num momento de queda de sua popularidade e do avanço das investigações sobre grupos a ele ligados e responsáveis pela disseminação de fake news que buscam a derrocada das instituições nacionais.

Ao afirmar que as eleições brasileiras são fraudadas e ao colocar em dúvida todo um trabalho desenvolvido pela Justiça Eleitoral, o presidente sonega da população que o sistema das urnas eletrônicas foi desenvolvido com a participação de técnicos e engenheiros dos três contingentes militares.

Omite da opinião pública que atualizações são sistematicamente realizadas e que todas as denúncias investigadas nunca apontaram fraude no sistema. No máximo, foram registrados problemas técnicos pontuais em equipamentos que acabavam sendo substituídos ou, na falta destes, a votação se realizava em cédulas de papel.

Apesar de, há meses, ter anunciado que apresentaria provas, o presidente ofereceu apenas suas convicções, vídeos coletados na internet, teorias conspiratórias e relatos difundidos em grupos de WhatsApp. A insanidade chegou ao ponto de assegurar ter havido uma investigação da PF no final de 2008 indicando uma invasão do sistema. Só não avisou que, meses depois, os investigadores concluíram não ter havido fraude alguma. Tudo somado, o resultado foi o equivalente a uma nota de R$ 3.

Alguns podem até ter esquecido, mas, na eleição de 2014, a primeira desde a redemocratização em que um candidato derrotado não reconheceu a lisura do pleito, a auditoria realizada pelo PSDB não apontou nada que corroborasse com a tese do então candidato Aécio Neves.

Ao ameaçar de que não haverá eleição no país no ano que vem caso seu desejo pelo dito “voto impresso” não seja atendido, o presidente ultrapassa a linha do flerte e se abraça àquilo que todos devemos execrar. Da mesma forma, se mostra um arremedo mal enjambrado do seu ídolo, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que também acusou o sistema eleitoral do seu pais como fraudulento, apesar de lá o voto ser em cédulas de papel.

Outro exemplo dessa proximidade com o desdém à escolha popular foi o encontro, na semana passada, com a deputada alemã Beatrix von Storch, neta de um ex-ministro de Adolf Hitler e integrante do partido de extrema-direita AfD, agremiação que acolhe militantes neonazistas e que é investigada por realizar discursos de ódio e violência contra minorias.

O AfD também questiona o último pleito realizado na terra de Goethe. Lá, os eleitores utilizam cédulas de papel, o que mostra que o problema do presidente brasileiro não são as urnas eletrônicas, mas uma democracia que o contrarie.

Uma análise feita pelos professores da Universidade de Harvard (EUA) Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, sobre o desmanche de regimes democráticos nos últimos cem anos, demonstra que hoje, diferentemente dos golpes militares do passado, ele se dá com o enfraquecimento e campanhas constantes de descrédito de instituições como a imprensa e o judiciário e “a erosão gradual de normas políticas de longa data”. Toda semelhança não é mera coincidência.

Ao olhar o presidente criar um cenário que pode nos levar a uma ruptura violenta e sem precedentes em nossa História recente, é preciso que a sociedade fique atenta, cerre fileiras em defesa da nossa ainda jovem e frágil democracia e preste atenção à nota do STF sobre outro delírio presidencial, o de que ficou de mãos atadas no combate à pandemia. O título da nota é bastante preciso: uma mentira contada mil vezes não vira verdade.

Fica a sugestão: ao invés de afrontar a democracia e “rugir” contra a urna eletrônica, a maior autoridade do país deveria gastar o seu tempo combatendo, “de corpo e alma”, a fome, o desemprego, a pobreza e a pandemia, mazelas bastante evidentes e cruéis do nosso país. Foi para atacar os problemas do Brasil que ele acabou eleito.  Mas ao que tudo indica, trabalhar e governar não são especialidades nem vocações do atual mandatário do Palácio do Planalto.

* Deputado Estadual
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