SETEMBRO VERDE
Audiência pública alerta para importância da doação de órgãos
Marinella Peruzzo - MTE 8764 | Agência de Notícias - 13:52 - 22/09/2021 - Foto: Reprodução Fotografia / ALRS
A necessidade de conscientização sobre a importância da doação de órgãos e os tabus que cercam o tema foram alguns dos aspectos discutidos, na manhã desta quarta-feira (22), em audiência pública da Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembleia Legislativa. O debate foi proposto pela deputada Franciane Bayer (PSB), que preside a Frente Parlamentar de Estímulo à Doação de Órgãos. 

“Infelizmente, a negativa familiar é o principal motivo para que um órgão não seja doado no Brasil”, disse a deputada na abertura dos trabalhos. “No ano passado, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, 43% das famílias recusaram a doação de órgãos de seus parentes após morte encefálica comprovada”, acrescentou, esclarecendo que falava como “alguém que viveu os dois lados” da situação, tanto de autorizar a doação como de ter um familiar transplantado. 

A presidente da Comissão, deputada Zilá Breitenbach (PSDB), salientou o papel dos parlamentares na divulgação do tema e sugeriu a elaboração, por parte do órgão técnico, de um material gráfico para ser distribuído à população, avaliando que os demais membros da comissão não se oporiam à iniciativa.

Segundo a presidente da ONG Via Vida, Maria Lúcia Elbern, a lista de espera por transplantes praticamente dobrou do ano passado para cá. "Lembro que, em 2019, ao final do ano, tínhamos 1.400 pessoas na lista de espera e hoje temos 2.500 pessoas", disse. “No Brasil, passamos de 30 mil para 40 mil”, continuou, observando que a queda no número de transplantes havia sido em torno de 50%. “Teremos que trabalhar muito para mudar essa situação atual”.

Diante desse quadro, o deputado Dr. Thiago (DEM) lançou de imediato um questionamento aos participantes da audiência a respeito do motivo pelo qual, segundo eles, teria se dado uma redução tão elevada no número de transplantes, uma vez que a interrupção dos procedimentos durante a pandemia teria sido temporária. Também referiu bons resultados obtidos na área em Santa Catarina, indagando o porquê dessas diferenças.

O chefe do Serviço de Transplantes e Órgãos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Roberto Ceratti Manfro, disse que o contexto da pandemia levou a uma redução das doações e dos transplantes no mundo todo. Em algumas estruturas, segundo ele, a recuperação se deu de forma rápida, o que não foi o caso do Brasil e do Rio Grande do Sul. “Não estamos ainda numa fase pós-Covid, mas numa fase em que todos os programas de transplantes já estão operacionais dentro de hospitais que estão com possibilidade de realizá-los”, esclareceu, lembrando que houve um período em que todos os procedimentos foram de fato interrompidos.

Sobre o ponto levantado pelo deputado, disse que era preciso “uma avaliação muito adequada de como estamos funcionando em termos de doação de órgãos”. O Rio Grande do Sul, segundo Manfro, era um estado privilegiado em termos de instituições hospitalares, bem equipadas, com experiência de mais de 40 anos em transplantes. “Mas temos que propiciar mais do que há de melhor”, disse.

“Nossa condição de doações de órgãos precisa ser revisitada”. Segundo o especialista, o estado já foi o melhor do Brasil na área e talvez fosse necessário buscar os modelos mais bem sucedidos hoje – Paraná e Santa Catarina – e verificar quais as ações que eles implementaram e que poderiam ser implementadas aqui para tornar os números de doações e de transplantes mais compatíveis com a necessidade.

Mitos e tabus
O médico André Gorgen, da equipe de transplantes hepáticos da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, disse que alguma redução nas doações e transplantes foi de fato necessária durante o manejo da pandemia, até em razão de os transplantados serem pacientes imunossuprimidos, mais sujeitos à infecção pelo coronavírus, e reiterou a necessidade de se “bater na tecla da divulgação” do tema da doação de órgãos. Disse que, além de mitos como “vão matar meu familiar e roubar os órgãos”, a pandemia trouxe o temor pela entubação como se esta fosse uma sentença de morte. “Não é. É um tratamento que salva vidas”, assegurou.  

Também a assistente social Clarissa Folle, com experiência de 20 anos na área de transplantes da Santa Casa de Misericórdia, e a diretora da Escola de Saúde Pública, Teresinha Valduga Cardoso, mencionaram os mitos que dificultavam a doação de órgãos. Clarissa contou que ela própria, quando apresentou o assunto à família, sentiu a reação dos familiares de não querer “falar em morte”. Ela aproveitou para divulgar evento, no dia 29 de setembro, em Santa Cruz, sobre o tema. 

Já a diretora da Escola de Saúde Pública informou sobre evento online,  a realizar-se nesta tarde, às 17h, com o tema “Cenário Estadual de Doações de Órgãos e Transplantes”, por meio da plataforma Cisco Webex aqui

O presidente da Sociedade de Nefrologia Gaúcha, Dirceu Reis da Silva, chamou a atenção para outro ponto: a crise enfrentada pelas clínicas de hemodiálise que prestam atendimento pelo SUS. Disse que havia hoje 70 clínicas no estado, muitas das quais ameaçadas de fechar. Citou o caso de uma, em Santana do Livramento, que já estaria com data anunciada de fechamento em 29 de setembro. O valor pago pelo Ministério da Saúde para uma sessão de hemodiálise, segundo ele, era R$ 194,00, quando deveria ser de R$ 278,00 para assegurar a sustentabilidade mínima. “A última correção aconteceu em janeiro de 2017 e, desde então, as clínicas que prestam serviço ao SUS lutam para não fechar as portas”, lamentou.

O chefe-substituto da Divisão de Transplantes do Departamento de Regulação da Secretaria Estadual da Saúde, Diego Fraga Pereira, descreveu variações verificadas nos últimos meses, como o incremento importante na fila de transplantes de córnea, que chegou a 900% em determinado momento, e o trabalho de divulgação desenvolvido pelo órgão, assim como o contato permanente mantido com as equipes de procura de órgãos. 

O coordenador da comissão intra-hospitalar do Hospital Universitário São Francisco de Paula, de Pelotas, Luciano de Oliveira Teixeira, disse que havia graves carências econômicas e culturais que impediam as famílias de aceitarem a doação de órgãos e que era preciso ampliar a divulgação do tema. 

James Cassiano, transplantado cardíaco, de 37 anos, contou como foi receber o diagnóstico de uma cardiopatia grave, em maio de 2019, casado, pai de três filhos, incluindo um bebê de oito meses. Disse que aproveitou a oportunidade para combater a desinformação e, desse modo, salvar pessoas à espera do “sim” de alguma família.

A deputada Federal Liziane Bayer (PSB-RS) lembrou que o mês de setembro marcava duas campanhas especiais, a do Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio, e o Setembro Verde, de estímulo à doação de órgãos. Disse que seria exigido um esforço extra para se retomar a mobilização perdida durante a pandemia e que a doação era um ato de amor, mas também de responsabilidade humana, de cada pessoa, ao se declarar doadora ou de cada família que, ao perder um ente querido, não se esquecia dos demais. 
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Comissão de Saúde e Meio Ambiente - audiência pública virtual

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