SESSÃO SOLENE DE OUTORGA DO TÍTULO DE DEPUTADO EMÉRITO
AO EX-DEPUTADO AYRTON D'ÁVILA BARNASQUE,
EM 09 DE MAIO DE 2001.
Presidência do Deputado Sérgio Zambiasi.
Às 15 horas o Sr. Sérgio Zambiasi assume a direção dos trabalhos.


sergio_zambiasi_5.jpg (19109 bytes) O SR. PRESIDENTE SÉRGIO ZAMBIASI (PTB) - Invocando a proteção de Deus, declaro aberta a presente Sessão Solene, de outorga do título de Deputado Emérito ao ex-Deputado Ayrton d'Ávila Barnasque.

Exmo. Sr. Desembargador Dr. Antônio Guilherme Tanger Jardim, neste ato representando o Exmo. Sr. Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, Desembargador Luiz Felipe Vasques de Magalhães; Exmo. Sr. Secretário de Estado do Turismo, Sr. Milton Zuanazzi; Exmo. Sr. Vereador Nereu d'Ávila, neste ato representando a Câmara Municipal de Porto Alegre; Exmo. Sr. Vitor Hugo Guimarães Barnasque, que neste ato representa o nosso homenageado, ex-Deputado Ayrton d'Ávila Barnasque, impossibilitado de estar presente por motivos de saúde; Exmo. Sr. Henrique Henkin, ex-Deputado desta Casa, na pessoa de quem saúdo todos os Parlamentares e ex-Parlamentares desta Assembléia; Exmo. Sr. Diretor do Fórum de Porto Alegre, Sr. Rinez da Trindade; Exmo. Sr. Reinaldo Felix Alves Bertoi, neste ato representando a Associação dos Juízes do Estado do Rio Grande do Sul; Exma. Sra. Procuradora Regional da União, Dra. Sandra Veiga dos Reis; Exmos. Srs. Prefeitos e Vice-Prefeitos; Exmos. Srs. Vereadores; Ilmo. Sr. Irani Siqueira, representando o Comando Militar do Sul; Ilmo. Sr. Jocelin Azambuja, representando a Ordem dos Advogados do Brasil; Ilmo. Sr. Luiz Amado Hancian, representando a Superintendência da Receita Federal; Ilmo. Sr. Presidente da Associação dos Jovens Empresários do Estado do Rio Grande do Sul, Sr. Renato Turk Faria, na pessoa de quem saúdo todos os representantes empresariais presentes; Ilmo. Sr. Representante da Delegacia Regional do Trabalho, Sr. Vasco Marques; Ilmos. Srs. Representantes de Entidades de Classe; Ilmos. Srs. Representantes da Imprensa, Senhoras e Senhores:

Temos sobre a Mesa dois telegramas. O primeiro deles foi encaminhado ao homenageado e tem o seguinte teor:

Ao cumprimentá-lo, felicito-o pela homenagem que a Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul estará lhe prestando outorgando-lhe o título de Deputado Emérito.

Cordialmente,

Marco Maciel, Vice-Presidente da República.

O segundo telegrama foi encaminhado à Presidência desta Casa:

É com muita satisfação que recebo de V. Exa. o convite que outorga ao ex-Deputado Ayrton Barnasque o título de Deputado Emérito. Devido a compromissos assumidos anteriormente não poderei estar presente à Sessão Solene que se realizará hoje, dia 9 de maio. Outrossim, informo que o ilustre Deputado Vieira da Cunha, autor da merecida proposta, me representará nesta oportunidade.

Cordialmente,

Leonel Brizola.

Convido os presentes para, de pé, ouvirmos o Hino Nacional, executado pelo cantor Sérgio Rojas.

(Ouve-se o Hino Nacional.)

O SR. PRESIDENTE SÉRGIO ZAMBIASI (PTB) – Convido o Exmo. Sr. Deputado Vieira da Cunha, proponente desta homenagem, a fazer uso da palavra.

vieira_da_cunha_3.jpg (5813 bytes) O SR. VIEIRA DA CUNHA (PDT) – Exmo. Sr. Presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, Deputado Sérgio Zambiasi; Exmos. Srs. Deputados; Exmo. Sr. Desembargador Antônio Guilherme Tanger Jardim, neste ato representando o Exmo. Sr. Presidente do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul; Exmo. Sr. Secretário de Estado do Turismo, Sr. Milton Zuanazzi, neste ato representando o Exmo. Sr. Governador do Estado do Rio Grande do Sul; Exmo. Sr. Vereador Nereu d'Ávila, neste ato representando o Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre; Exmo. Sr. Vitor Hugo Guimarães Barnasque, neste ato representando o nosso homenageado, o ex-Deputado Ayrton d'Ávila Barnasque; Exmo. Sr. Henrique Henkin, ex- Deputado desta Casa, na pessoa de quem saúdo todos os ex-Parlamentares desta Assembléia Legislativa que nos dão a honra de sua presença nesta Sessão Solene; Exmo. Sr. Diretor do Foro de Porto Alegre, Sr. Rinez da Trindade; Exmo. Sr. Reinaldo Felix Alves Bertoi, neste ato representando a Associação dos Juízes do Estado do Rio Grande do Sul; Exma. Sra. Procuradora Regional da União, Dra. Sandra Veiga dos Reis; Ilmo. Sr. Irani Siqueira, neste ato representando o Comando Militar do Sul; Ilmo. Sr. Jocelin Azambuja, representando a Ordem dos Advogados do Brasil; Ilmo. Sr. Luiz Amado Hancian, representante da Superintendência da Receita Federal; Ilmo. Sr. Presidente da Associação dos Jovens Empresários do Rio Grande do Sul, Renato Turk Faria; Ilmo. Sr. Vasco Marques, representando a Delegacia Regional do Trabalho; Exmos. Srs. Prefeitos e Vice-Prefeitos; Exmas. Sras. e Srs. Vereadores; Ilmos. Srs. e Sras. Dirigentes dos Partidos Políticos que nos honram com sua presença; demais autoridades; Srs. da Imprensa; Senhoras e Senhores:

A Assembléia Legislativa, nesta data, vive um dos seus momentos de especial significação ao conferir a Ayrton d'Ávila Barnasque o título de Deputado Emérito do Estado do Rio Grande do Sul.

Filho de Homero Brum Barnasque e Olívia d'Ávila Barnasque, nasceu nosso homenageado na Princesa do Jacuí, nossa querida Cachoeira do Sul, também minha terra natal, em 11 de junho de 1918.

De origem humilde, cresceu nas lides do campo, envolto pelas relações do capital e trabalho, que privilegiavam, assim como hoje, os donos da terra, sem dar para aqueles que nela trabalham condições dignas de vida.

A partir do aprendizado empírico, obtido na vivência dos conflitos do campo, das dificuldades do homem do campo e no seu constante desejo de aprender, que norteia a vida pessoal e pública do nosso homenageado, Ayrton Barnasque veio a Porto Alegre cursar Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com o intuito de aperfeiçoar-se profissionalmente para intervir com mais eficácia no quadro de injustiças que testemunhara.

Jovem estudante de Direito, cursando ainda o terceiro ano, casa-se com a Dona Ada Guimarães, recentemente falecida, no final de 1999, interrompendo seu curso na Universidade e voltando para sua terra natal, Cachoeira do Sul, onde se dedicou à orizicultura para garantir a subsistência da família, lutando com grandes dificuldades.

Em seu primeiro ano como agricultor, uma seca assola a Região, transformando a colheita em dívidas. No segundo ano, repete-se o fenômeno e, no ano seguinte, perde a safra na dramática enchente de 1941. Os prejuízos acumulados fizeram com que entregasse suas terras ao Banco do Brasil para pagar as dívidas. Passa, então, a trabalhar como empregado na agricultura.

Dotado do dom da oratória e com o conhecimento político adquirido na sua experiência de vida, Ayrton Barnasque funda o Partido Trabalhista Brasileiro no Município de Cachoeira do Sul, em 1945. Já em 1946 concorre a Vereador pelo PTB, elegendo-se como o mais votado. Assume a Liderança da Bancada, fato que se repetirá em 1950, quando se engaja à campanha vitoriosa de Getúlio Vargas à Presidência da República.

Agora, Barnasque já é o capataz de uma fazenda nos arredores de Cachoeira. Num esforço paralelo à sua vida política, Ayrton Barnasque retorna à atividade produtora agrícola, através do arrendamento de uma gleba de terras no Distrito da Barragem do Capané, onde inicia o cultivo de uma pequena lavoura.

Na campanha eleitoral de 1954, era candidato a Deputado Estadual pelo Município de Cachoeira do Sul o então Prefeito Virgilino Jayme Ziin, que se retira da disputa faltando apenas 45 dias da eleição. Para que a cidade de Cachoeira do Sul não ficasse sem candidato a Deputado, é lançado no seu lugar o Líder da Bancada do PTB na Câmara de Vereadores, o jovem e combativo Vereador Ayrton Barnasque.

Sem recursos, conta apenas com a doação de 5 mil cédulas de propaganda. Pois a população do Município de Cachoeira do Sul, graças à credibilidade do Vereador Barnasque, transformou aquelas 5 mil cédulas em 4.872 votos, elegendo Ayrton Barnasque Deputado Estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro.

Cabe destacar, Sr. Presidente e Colegas Deputados, que em seu primeiro pronunciamento neste Parlamento, em março de 1955, aos 37 anos de idade, o Deputado Ayrton Barnasque profere discurso referindo as suas origens nos seguintes termos – palavras do nosso homenageado:

(Transcreve-se a matéria lida.)

(...) Quero, para justificar minha tradição na lavoura, dizer-lhes de onde venho. Nasci na margem direita do Arroio Santa Bárbara, no Município de Cachoeira do Sul. A primeira visão panorâmica que descortinei ao despertar para minha atribulada existência foi a dos verdes arrozais, que, como um tapete enorme, cobrem as várzeas da minha terra natal.

Bem cedo iniciei as minhas lides no cultivo da terra para o plantio do arroz, e até mesmo as minhas férias de estudante pobre eram destinadas ao trabalho árduo da lavoura orizícola.

Mais tarde, por circunstâncias várias, abandonei os estudos e dediquei-me de corpo e alma à penosa tarefa da produção agrícola. Passei, então, a estudar a fundo os problemas da lavoura do arroz. Fui taipeiro, lavrador, carreteiro, tratorista, aguador, capataz e dono de pequena granja. Convivo e trabalho desde 1941 até estes dias com os bravos e laboriosos orizicultores da minha terra. Trago, por isso, dentro do meu coração, a grata satisfação da certeza do dever cumprido em prol da grandeza e do desenvolvimento econômico do nosso Estado.(...)

Grande Orador que era, embora homem de poucas palavras – como me disse o seu filho Vitor Hugo há poucos minutos –, toda vez que assumia a tribuna do Parlamento gaúcho, o plenário silenciava para ouvir os seus discursos.

A propósito, permitam-me que refira brevemente um aplaudido discurso do Deputado Barnasque, que encontrei pesquisando nos anais desta Casa, proferido em abril de 1957 – Deputado Sérgio Zambiasi –, logo após um trágico acidente aéreo que vitimou meu tio, então Secretário de Educação do Estado, Liberato Salzano Vieira da Cunha, e a sua esposa Geny Figueiredo Vieira da Cunha. Além de um significado especial para mim e toda a minha família, família Vieira da Cunha, as palavras do Deputado Ayrton Barnasque, na ocasião, bem representam o seu caráter de homem fraterno e solidário.

Disse na ocasião o Deputado Barnasque, e me socorro dos anais desta Casa, repito, do discurso proferido por S. Exa. no mês de abril de 1957:

(Transcreve-se a matéria lida.)

Sr. Presidente e Srs. Deputados:

Está o Legislativo Rio-Grandense reunido em Sessão Solene para homenagear a memória de um de seus mais brilhantes membros, tão trágica e prematuramente desaparecido de nosso convívio.
Em nome da Bancada do Partido Trabalhista Brasileiro, ocupo a minha tribuna, neste momento, para reverenciar a memória do nosso saudoso Deputado Liberato Salzano Vieira da Cunha, daquele semeador de virtudes, que nasceu na cidade de Cachoeira do Sul, a 20 de dezembro de 1920, e que a morte, implacavelmente, foi buscar de maneira tão trágica, sob os céus de Bagé, no dia 7 do corrente mês.

Conheci Liberato Salzano Vieira da Cunha desde a infância, e juntos aprendemos as primeiras letras numa escola pública da nossa cidade natal; juntos percorremos brincando as calmas e ensolaradas ruas da Princesa do Jacuí; juntos demandamos a esta Capital para freqüentar o Curso Superior, sem pensarmos, sequer, que o generoso povo da nossa terra juntos nos elegeria um dia, embora sob legendas partidárias diferentes, para representá-lo nesta augusta Casa, cheia de tão grandes e gloriosas tradições, e que ele tão bem soube honrar durante os quatro anos da legislatura passada, quando para ela veio cheio de mocidade, transbordando inteligência e cultura, trazendo como único desejo o de bem servir o Rio Grande.

Hoje, 'por uma dessas fatalidades que descem do Além', separados para sempre, coube a este seu modesto colega e sincero amigo a dolorosa missão de prestar-lhe esta homenagem póstuma, à qual peço vênia para tornar extensiva àquela que foi em vida sua companheira inseparável, que com ele partiu para a vida eterna, sua amantíssima esposa Dona Geny Figueiredo Vieira da Cunha.

Se Cachoeira do Sul sentia-se orgulhosa por ter dado ao nosso Estado, nesse período governamental, dois Deputados a esta Assembléia e um Secretário de Estado, mais orgulhosa ainda sentiu-se quando o Sr. Governador do Estado, em feliz iniciativa, houve por bem convidar o Deputado Liberato Salzano para participar do seu Governo, confiando-lhe um dos mais importantes setores administrativos, qual seja, a Secretaria da Educação e Cultura, cargo no qual aquele eminente homem público se conduziu com inteira dedicação e com o brilhantismo invulgar.

Sim, Liberato!

O povo de Cachoeira do Sul, aquele mesmo povo que te elegeu Prefeito de nossa terra, quando contavas apenas 25 anos de idade; aquele mesmo povo que te elegeu Deputado em duas campanhas políticas consecutivas; aquele mesmo povo que chorou copiosamente a tua morte, é aquele mesmo que, através de seu modesto representante, vem dizer-te agora, quando uma nuvem de tristeza paira sobre os céus do Rio Grande, que continuará admirador de tua obra, orgulhoso de ti e que saberá honrar eternamente a tua memória.

Saudoso colega Vieira da Cunha!

A Bancada do meu Partido, por reconhecer em ti o adversário leal que soube sempre colocar a dignidade dos homens acima das paixões e apetites políticos, reconhecendo em ti as qualidades exemplares do homem público, qualidades próprias aos homens do nosso pago, em reconhecimento ainda aos relevantes serviços que prestaste a esta Casa Legislativa, vem, por intermédio, manifestar as suas homenagens e rogar a Deus pelo descanso eterno da tua alma.

Este é o Deputado Ayrton Barnasque, nosso homenageado, que se reelege em 1958, tendo percorrido o Rio Grande ao lado da candidatura vitoriosa ao Governo do Estado do Engenheiro Leonel Brizola.

Brizola, eleito Governador, conduz Ayrton Barnasque ao seu secretariado, na Pasta da Administração, onde se conduziu com competência e probidade.
Faço questão de destacar, em sua gestão como Secretário de Estado, o impulso na obra da construção do Hospital Ernesto Dornelles, antiga reivindicação do funcionalismo estadual à época.

Em 1961, ao lado de Brizola, Ayrton Barnasque participou ativamente do Movimento pela Legalidade, uma das páginas mais heróicas da história brasileira, que, em agosto próximo, completará 40 anos.

Também merece destaque a participação do Deputado Barnasque na implantação e consolidação da primeira experiência de reforma agrária do País, no banhado do colégio, Município de Camaquã.

Ayrton Barnasque é novamente conduzido, pelo voto popular, na eleição de 1962, para o seu terceiro mandato consecutivo nesta Casa, mantendo com o mesmo vigor a defesa intransigente dos interesses da lavoura orizícola, da produção primária do Estado e das instituições democráticas.

O golpe militar de março de 64 obriga o reagrupamento das forças políticas democráticas no País, criando o MDB – Movimento Democrático Brasileiro –, do qual o Deputado Ayrton Barnasque, no Estado, é fundador, passando a ser um dos esteios na resistência aos atos discricionários que se seguiram ao golpe militar.

Em 1964, ele é candidato à Presidência da Assembléia Legislativa do Estado pelo MDB, Partido que tinha maioria neste Parlamento. No entanto, o regime de exceção cassa, às vésperas da eleição, alguns Deputados, alterando a correlação de forças entre os dois Partidos, para permitir a eleição do candidato da Arena.

Naqueles duros tempos, Barnasque não silenciou perante os poderosos. Coerente com os seus princípios trabalhistas, às vésperas do Natal de 1964, proferiu discurso na tribuna da Assembléia Legislativa nos seguintes termos, conforme os anais desta Casa.

(Transcreve-se a matéria lida.)

(...) Ninguém mais sabe para onde marcha esta Nação.

Por isso, Srs. Deputados, nesta hora em que todo o Rio Grande, todo o Brasil e toda a humanidade se prepara para festejar a data máxima da cristandade, a data da confraternização universal, julgo oportuno dirigir algumas palavras aos responsáveis por este Estado principalmente e aos responsáveis por este País, dizendo-lhes que, em nome desses princípios cristãos, à sombra dos quais forjaram o movimento de 1º de abril, eis que era de rosário em punho e em nome de Cristo que compareciam os líderes desse movimento às televisões e aos comícios, dizendo que queriam restaurar um clima de democracia neste País.

Pois bem, a esses cristãos, nesta hora, desejo fazer um apelo para que libertem os nossos companheiros inocentes que estão mergulhados nas cadeias como assassinos vulgares, homens que encaneceram servindo a este Rio Grande, ora ocupando altos cargos do Executivo, ora atuando com brilhantismo nesta Assembléia Legislativa, que, hoje, às vésperas do Natal, lá estão, separados das suas famílias, pagando por crimes que não cometeram.

Conheço os seus pensamentos. Há poucos dias, conversava com o Deputado João Caruso, e ele, naquela sua tranqüilidade, naquela sua serenidade, homem avesso a qualquer medida de violência, dizia que o único caminho certo para o PTB era lutar para que fosse restaurado o clima democrático no País, para que pudéssemos retomar a nossa senda na conquista das grandes reformas preconizadas por Brizola, por Jango e por todos os líderes do PTB. Reformas que estão ainda apenas na conversa, porque nenhuma delas, até hoje, foi realizada para valer.

A única reforma que se fez foi a da Constituição para prorrogar o mandato do Presidente da República. A reforma agrária, que todos proclamam, que todos desejam, que todos sabem ser indispensável para o progresso desta Nação, está apenas na conversa, e não acreditamos que se concretize sob a égide do atual Governo. Mas dizia, Srs. Deputados, que, em virtude de tudo isso, faria este apelo às nossas autoridades.

Parece-me, entretanto, mais prudente que faça a essa divina figura, cuja data natalícia será comemorada daqui a poucos dias, para que Ele, com o seu poder incomensurável, possa penetrar esses espíritos pobres de razão para fazer com que voltem ao bom-senso, para fazê-los compreender que a violência só pode gerar a violência, para fazê-los compreender e lembrar que tem sido norma na política brasileira, desde os tempos imperiais, em todos os grandes movimentos renovadores que houve nesta Pátria, não à violência, não ao espancamento nem à tortura, mas à anistia. E foi com anistias gerais que todos os regimes transitórios que se instalaram no Brasil puderam consolidar-se.

Que este Governo, ao invés de perseguir e de torturar – e lembro que isso foi dito em dezembro de 1964 –, pense um pouco, pelo menos agora, nas vésperas do Natal, na possibilidade de anistiar. Não digo perdoar porque não há a quem perdoar. Que crime cometeram esses que estão sendo perseguidos? Crime apenas intencional de reagir, se lhes fosse possível, para manter o Presidente que depuseram pela força. (...)

Antes de encerrar esse seu pronunciamento corajoso que, repito, foi feito em dezembro de 1964, o Deputado Barnasque fez questão de se referir aos seus companheiros presos e exilados pelo Regime com as seguintes palavras:

(Transcreve-se a matéria lida.)

(...) Advertido de que está esgotado o meu tempo, deixo esta tribuna, Srs. Deputados. Antes, porém, desejo enviar daqui a minha mensagem amiga, fraterna e cristã, a minha mensagem de Natal aos meus companheiros, líderes do meu Partido e modestos soldados que estão hoje presos. Aos ilustres companheiros e chefes do PTB, Leonel Brizola e João Goulart, que amargam o exílio, também envio daqui, desta tribuna do povo, meus votos de um Feliz Natal e os meus votos de que o Natal do ano que vem possa ser ainda mais feliz, porque acertadamente, se Deus quiser – e dizem que Deus é brasileiro –, em 1965, talvez eles possam estar aqui pisando o solo brasileiro, confraternizando não só com seus familiares, mas também com seus patrícios.

Outra atitude concreta do Deputado Barnasque, em plena ditadura, que demonstra o seu espírito cívico, corajoso e democrático, foi tomada em 31 de agosto de 1966, quando, juntamente com outros 18 Deputados, requereu a instalação de uma CPI com o objetivo de investigar as circunstâncias em que ocorreu a morte do ex-Sargento do Exército Brasileiro e preso político, Manuel Raymundo Soares, e ainda investigar a situação e o tratamento dispensado aos presos políticos do nosso Estado.

O ex-militar Manuel Raymundo Soares, que se encontrava recolhido na famosa Ilha do Presídio, foi encontrado nas águas do Guaíba em 24 de agosto, com evidências de tortura e com as mãos amarradas. A Presidência da CPI coube ao nosso homenageado, Deputado Ayrton d'Ávila Barnasque, e a relatoria ao não menos combativo Deputado Rosa Flores. Coincide o andamento da CPI com o novo período de eleições.

Em 1966, o reconhecimento do seu trabalho no Parlamento é traduzido em mais um mandato na Assembléia Legislativa, o quarto consecutivo. Permanece o Deputado Barnasque, também neste mandato, atento às causas do Rio Grande, do direito e da democracia.

Ayrton Barnasque continua a denunciar, em plena época da ditadura militar, a violação dos direitos políticos e humanos, tão vilipendiados à época. Continua nessa legislatura a CPI das Mãos Amarradas – como ficou conhecida. Vêm à tona todos os fatos relativos ao tratamento dado aos presos políticos pelo regime militar, através dos órgãos de repressão, como o Departamento de Ordem Política e Social – DOPS –, de triste memória.

O Deputado Barnasque, na Presidência da CPI, sofre toda a sorte de pressão do regime discricionário, mas mantém, corajosamente, o rumo das investigações, desvendando a violência da estrutura ditatorial e permitindo o conhecimento público da realidade até então escondida nos porões da ditadura militar.

No final de março de 1967, quando o golpe militar completava três anos, o Deputado Ayrton Barnasque subiu a esta tribuna e, como Presidente da CPI, disse o seguinte sobre a morte do Sargento Manuel Raymundo Soares – e novamente me socorro dos anais desta Casa, do dia 31 de março de 1967: Não sei quem o matou. Está em vias de conclusão o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito, a que tive a honra de presidir. Não desejava antecipar qualquer pronunciamento. Mas, diante do copioso material de provas que temos no processo que está nesta Casa e que irá para a Justiça rio-grandense, posso dizer que, se não o assassinaram na Polícia, contra ele cometeram toda a espécie de atrocidades dos bons métodos da época medieval e não apenas contra ele, que foi massacrado, queimado, submetido à tortura conhecida como 'pau-de-arara', cujas provas estão nesse processo, mas contra outros presos políticos que tiveram também a desdita de cair nas garras de certos homens que não têm condições para integrar quadro algum do serviço público, principalmente para integrar o órgão que deve servir de segurança e de garantia à defesa da criatura humana neste Estado.

Não conheço a pessoa acusada pela nota de estar envolvida na morte do Sargento Manuel Raymundo Soares. Não tenho elemento algum para afirmar que esteja. Mas temos, no processo – dizia o Deputado Barnasque, em março de 1967 – instaurado pela comissão que presidimos, provas cabais de que quem torturou esse verdadeiro mártir do golpe de 1º de abril foi o DOPS, foram seus agentes.

Na referida CPI, pela primeira vez foram chamadas a depor, aqui na Assembléia do Rio Grande, autoridades do regime tidas, até então, como intocáveis. Depuseram entre outros o Secretário de Segurança e o Diretor do DOPS da época. A Comissão concluiu seus trabalhos e os encaminhou ao Ministério Público e ao Judiciário, com um relatório que continha provas das atrocidades cometidas e apontava os seus responsáveis.

A divulgação dos resultados dos trabalhos desenvolvidos pela CPI do Crime das Mãos Amarradas, em junho de 1967, foi um marco referencial da luta democrática da sociedade gaúcha e da sociedade brasileira, pois contribuiu para avivar, no espírito da população, sua vontade de voltar ao estado de direito pleno, onde houvesse respeito aos direitos humanos.

Sras. e Srs. Deputados, o nosso homenageado é pai de nove filhos: Ayrton Sérgio Guimarães Barnasque – já falecido –, Vitor Hugo Guimarães Barnasque – que, neste ato, representa o nosso homenageado –, Marco Aurélio Guimarães Barnasque, Marilene Guimarães Barnasque, Homero Guimarães Barnasque, Jorge Luiz Guimarães Barnasque, Maria Regina Guimarães Barnasque, Ada Guimarães Barnasque e Getúlio Guimarães Barnasque.

Permitam-me, antes de concluir, que faça uma breve mas especial referência ao Vitor Hugo e à Maria Regina que, dentre outras qualidades, Sr. Presidente, são dedicados funcionários desta Casa. O Vítor Hugo, hoje aposentado, para minha satisfação, representando a família nesta solenidade, ocupou o cargo de Supervisor de Serviços Complementares, foi Coordenador do Protocolo, Arquivo e Comunicações e, por oito anos, coordenou o combativo Núcleo dos Funcionários do PDT da Assembléia Legislativa do Estado.

A Maria Regina ocupou o cargo funcional máximo da Assembléia, Diretora-Geral. Foi também Supervisora da Diretoria de Pessoal e, como militante partidária, presidiu a Ação da Mulher Trabalhista e a Zonal 113 do PDT da Capital do Estado. Na pessoa dos dois, a nossa saudação e – se me permite o Presidente – a saudação deste Parlamento a toda a família do Deputado Ayrton Barnasque, que prestigia esta solenidade.

Sras. e Srs. Deputados, Ayrton Barnasque é um exemplo de chefe de família e de homem público. É amado por seus familiares e respeitado por todos que o conhecem. Não poderia deixar de destacar, ao final, o papel que ele desempenhou após a anistia pela qual tanto lutou. Sempre ao lado de Leonel Brizola, Barnasque foi um dos signatários, em 1979, do requerimento de refundação do PTB – Partido Trabalhista Brasileiro. Com a perda da sigla e coerente com a sua história política, Barnasque foi um dos fundadores do PDT – Partido Democrático Trabalhista –, que completa este mês 21 anos e cuja Bancada tenho a honra de hoje liderar nesta Casa.

Cabe ainda, Sr. Presidente, justificar a ausência, nesta tarde, do nosso homenageado, Ayrton Barnasque, eis que foi acometido de enfermidade que, infelizmente, o impede de comparecer a esta solenidade. Está, porém, muito bem representado pela sua família, amigos, companheiros que assistem, tenho certeza que orgulhosos, a esta Sessão Solene muito especial.

Talvez nem todos saibam que a honraria concedida hoje ao Deputado Ayrton Barnasque foi instituída em 1988 e que, desde então, apenas seis Parlamentares a receberam: Carlos Santos, Carlos de Britto Velho, Cândido Norberto, João Brusa Neto, Romeu Scheibe e Hed Borges. Para aprovação do título de Deputado Emérito são necessários dois terços dos votos favoráveis dos Parlamentares no exercício do seu mandato. Aproveito, aliás, para agradecer aos meus Colegas de Legislatura o apoio ao requerimento que está oportunizando esta merecida homenagem.

Colegas Deputados, tenho certeza que estamos fazendo justiça a um cidadão que está prestes a completar 83 anos de idade e que soube dignificar os mandatos que exerceu, honrando o seu partido e as melhores tradições do Rio Grande do Sul.

Obrigado, companheiro Ayrton Barnasque! A família trabalhista orgulha-se de tê-lo como um dos seus mais destacados membros, e a Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, de tê-lo como um dos seus mais atuantes e bravos Parlamentares.

Sua foto, caro Companheiro Barnasque, vai para a Galeria dos Deputados Eméritos do Rio Grande do Sul como um merecido reconhecimento do povo gaúcho aos inestimáveis serviços prestados a nossa gente e a nossa terra, ao longo dos seus quatro sucessivos e combativos mandatos.

Parabéns, Ayrton d'Ávila Barnasque, Deputado Emérito do Rio Grande do Sul. Muito obrigado. (Não revisado pelo Orador.)

O SR. PRESIDENTE SÉRGIO ZAMBIASI (PTB) - Esta Presidência saúda a Sra. Secretária de Estado de Minas, Energia e Comunicações, Dra. Dilma Rousseff, que prestigia esta Sessão Solene.

Em nome desta Assembléia Legislativa, tenho a honra de passar às mãos do Sr. Vitor Hugo Guimarães Barnasque, neste ato representando o seu pai, o ex-Deputado Ayrton d'Ávila Barnasque, o diploma que este Parlamento lhe confere de Deputado Emérito do Rio Grande do Sul.

(Procede-se à entrega.) (palmas)

O SR. PRESIDENTE SÉRGIO ZAMBIASI - Convido o Exmo. Sr. Deputado Vieira da Cunha para proceder à entrega da medalha de Deputado Emérito ao Sr. Vitor Hugo Guimarães Barnasque, neste ato representando o seu pai.

(Procede-se à entrega.) (palmas)

O SR. PRESIDENTE SÉRGIO ZAMBIASI (PTB) - É com satisfação e com emoção que realizamos esta Sessão Solene, com o propósito de cumprir uma das obrigações desta Casa: preservar a sua própria memória, homenageando homens e mulheres que fizeram da história da sua vida a história do Parlamento do Rio Grande do Sul.

No dia de hoje, inscrevemos em nossa Galeria de Deputados Eméritos o nome do Deputado Ayrton Barnasque, que dedicou a sua bravura, a sua competência e a sua tenacidade, nos quatro mandatos que cumpriu nesta Casa, ao povo do nosso Estado.

É uma feliz coincidência que esta homenagem possa ser feita pelos Partidos de vertente trabalhista deste Poder: por meio do PDT, pelo seu Líder, Deputado Vieira da Cunha, autor do pedido, e por meio do PTB, a quem me cabe representar nesta Presidência, Partido pelo qual Ayrton Barnasque chegou a este Parlamento em 1955.

Este momento simboliza um feliz reencontro com nosso novo Deputado Emérito e uma homenagem que lhe prestam o Partido em que iniciou a sua vida parlamentar e a sigla que o abriga atualmente.

Lamentamos que problemas de saúde impeçam a presença de Ayrton Barnasque nesta Solenidade, mas agradecemos a presença dos seus amigos, dos seus familiares, dos seus oito filhos, especialmente a tua presença, Vitor Hugo, e a da Maria Regina, que, como funcionários, também têm longa folha de serviços prestados a este Poder.

Os homens e mulheres que lutaram pela democracia neste País ainda se lembram da importância vital que teve a tribuna deste Parlamento na defesa das liberdades democráticas ou nas denúncias de arbitrariedades.

Ayrton Barnasque honrou este Parlamento, honrou o povo do Rio Grande e inscreveu o seu nome na galeria dos grandes democratas deste País. A homenagem que hoje prestamos é apenas este reconhecimento que a história já lhe fez.

Convido os presentes para, de pé, ouvirmos o Hino Rio-Grandense, apresentado pelo cantor Sérgio Rojas.

(Ouve-se o Hino Rio-Grandense.)

O SR. PRESIDENTE SÉRGIO ZAMBIASI (PTB) – Após o término desta Sessão Solene, convido a todos para o descerramento da fotografia do Deputado Emérito Ayrton d'Ávila Barnasque na galeria destinada e esse fim, no 1º andar desta Casa.

Agradecendo a presença a todos, nada mais havendo a tratar, declaro encerrada a presente Sessão Solene, convocando os Deputados para a Sessão Ordinária de amanhã, à hora regimental.

(Levanta-se a Sessão às 16h5min.)

Estiveram presentes a esta Sessão os seguintes Parlamentares:

Bancada do PT: Deputados Cecilia Hypolito; Dionilso Marcon; Edson Portilho; Elvino Bohn Gass; Ivar Pavan; José Gomes; Luciana Genro; Maria do Rosário; Ronaldo Zülke; Roque Grazziotin.

Bancada do PPB: Deputados Adolfo Brito; Érico Ribeiro; João Fischer; José Farret; Otomar Vivian; Valdir Andres.

Bancada do PMDB: Deputados Alexandre Postal; Cézar Busatto; Elmar Schneider; Iara Wortmann; Jair Foscarini; José Ivo Sartori; Mário Bernd; Paulo Odone.

Bancada do PTB: Deputados Abílio dos Santos; Aloísio Classmann; Edemar Vargas; Eliseu Santos; Iradir Pietroski; Manoel Maria; Osmar Severo; Sérgio Zambiasi.

Bancada do PDT: Deputados Adroaldo Loureiro; Ciro Simoni; João Luiz Vargas; Vieira da Cunha.

Bancada do PFL: Deputados Germano Bonow; Onyx Lorenzoni.

Bancada do PSDB: Deputado Adilson Troca.

Bancada do PPS: Deputado Bernardo de Souza.

Bancada do PC do B: Deputada Jussara Cony.