Morre Britto Velho, o "guerreiro da democracia"


"Antes de ser letra escrita nas Constituições, tem que ser vida, modo de pensar, de sentir, de querer, de agir e somente na medida em que o homem for educado para a democracia, esta poderá desenvolver-se e subsistir".

Carlos de Britto Velho – 1912-1998.

A sessão Plenária da tarde de ontem na Assembléia Legislativa foi suspensa em memória do ex-deputado Carlos de Britto Velho, falecido na última terça-feira, aos 85 anos de idade, após uma cirurgia para conter um aneurisma. O corpo do Deputado Emérito foi velado ontem, no Salão Júlio de Castilhos da Assembléia Legislativa, e sepultado no cemitério da Santa Casa.

O presidente da Assembléia, deputado José Ivo Sartori, define Britto Velho como um dos principais responsáveis pela formação da imagem de seriedade que os políticos gaúchos conquistaram. Segundo Sartori, Britto Velho foi um grande professor, uma pessoa que pelas suas virtudes polemizava. "Ele foi nosso deputado federal e renunciou ao cargo justamente para mostrar seu descontentamento", recordou.

Uma vida dedicada à política

Um guerreiro pela democracia, era como se auto-intitulava Carlos de Britto Velho. Formou-se em Medicina em 1934, pela Universidade do Rio Grande do Sul, realizando, a seguir, pós-graduação em Paris e Genebra. Homem de vocações fortes, elegeu-se em 1947 à Assembléia Constituinte gaúcha pelo Partido Libertador e foi um dos 39, deputados, a elaborar a Carta Estadual, promulgada em 8 de julho de 1947. Assumiu a Secretaria da Educação e Assistência do Estado e, em outubro de 1962, foi eleito deputado federal, em coligação entre a Ação Democrática Popular-PL, UDN, PRP e PDC.

Como deputado federal, foi vice-líder do PL e vice-líder do bloco parlamentar UDN-PL na Câmara dos Deputados. A extinção dos partidos políticos com o Ato Institucional número 2, em 1965, fez com que Britto Velho se filiasse à Aliança Renovadora Nacional (Arena), pela qual foi reeleito em 1966. Após o AI-5, com a suspensão das atividades parlamentares no Congresso Nacional, Britto Velho renunciou ao mandato, atitude de protesto ao esvaziamento do Congresso. O parlamentarista não voltaria mais a exercer a função de deputado, porém, a vida pública e a vocação política foram continuadas através de cartas, declarações e pronunciamentos.

Um exemplo da sua retórica inesquecível foi apresentado ao Plenário da sessão solene do dia 28 de junho de 1989. 20 anos após a renúncia. Na homenagem como Deputado Emérito da Assembléia Legislativa, discursou a favor do parlamentarismo, da democracia e posicionou-se contra os militares. No discurso, o general Ernesto Geisel foi definido como arrogante e "muito pimpão", o que irritou militares presentes. A distinção de Deputado Emérito foi designada pelo deputado Sanchotene Felice (PMDB).

Foi casado por mais de 60 anos com Alice de Azambuja de Britto Velho, que morreu em 1997. Com ela, teve apenas um filho, Gabriel Araújo de Britto Velho, hoje professor de Filosofia da Ufrgs. Embora afastado do trabalho parlamentar, Britto Velho dedicava-se ultimamente a leituras e conversas políticas, além da correspondência incessante com personalidades e amigos.


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