ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO

DO RIO GRANDE DO SUL


Sessão Pública

Realizada em 01 de abril de 1997.


Presidência do Deputado João Luiz Vargas.

O SR. PRESIDENTE JOÃO LUIZ VARGAS (PDT) - Havendo numero regimental e invocando a proteção de Deus, declaramos abertos os trabalhos desta primeira Sessão Pública.

Srs. Deputados, esta Sessão Pública, que se realiza com base no art. 108, § 3º, da Constituição estadual, tem como propósito ouvir a manifestação do Exmo. Procurador-Geral da Justiça do Estado, Dr. Voltaire de Lima Moraes, a respeito das atividades e das necessidades da instituição que comanda no Rio Grande do Sul.

Ao cumprimentá-lo, queremos, em nome da Assembléia Legislativa, registrar a satisfação, o orgulho e a honra que sentimos em tê-lo como procurador-geral da Justiça há quatro anos, período em que contribuiu decisivamente para resolver as questões da Justiça em nosso Estado.

Passamos a palavra ao Dr. Voltaire de Lima Moraes.

O SR. VOLTAIRE DE LIMA MORAES - Exmo. Sr. Deputado João Luiz Vargas, DD. Presidente desta augusta Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, na pessoa de quem saúdo a Mesa Diretora e os demais parlamentares integrantes desta Casa:

Dando cumprimento ao art. 108, § 3º, da Constituição do Estado, tenho a honra de uma vez mais comparecer a este Plenário, legítimo representante do povo gaúcho, para relatar as atividades desenvolvidas pelo Ministério Público no ano de 1996, e as necessidades da instituição para o exercício corrente.

E o faço em momento histórico de importância ímpar, tendo em vista o intenso debate que se trava, em nível nacional, acerca do papel desempenhado pelas instituições em nosso Estado Democrático de Direito, não faltando vozes que se levantam para questionar sua própria existência.

Nada mais oportuno, assim, do que trazer aos nobres integrantes desta augusta Casa Legislativa dados que permitam reafirmar a relevância das funções institucionais do Ministério Público, outorgadas pelo Poder Constituinte de 1988, bem como a necessidade de sua manutenção e fortalecimento.

No longo e árduo processo de consolidação da cidadania, as demandas por Justiça assumem posição destacada, e o Ministério Público, neste contexto, tem sempre procurado responder à altura os anseios da sociedade.

Hoje, mesmo nas mais longínquas comarcas do interior do Estado, o cidadão sabe que tem, na defesa de seus direitos indisponíveis e como último reduto, a pessoa do promotor de Justiça, cujas atribuições vêm-se tornando cada vez mais conhecidas, graças a um intenso programa de divulgação realizado pelo Ministério Público. Com isso, busca-se facilitar o acesso à Justiça, sobretudo na demandas coletivas, em que, de um lado, se desafoga o Poder Judiciário da sobrecarga de processos de todos conhecida, e, de outro, obtém-se resultados muito mais positivos.

O papel do Ministério Público, como substituto processual dos segmentos sociais representados nessas lides, deve ser reconhecido como uma das soluções mais palpáveis para o que se possa desejar como instrumento de acesso à Justiça em futuro próximo, como, aliás, já se tem evidenciado especialmente a partir da Carta Republicana de 1988 e da Lei Orgânica Nacional de 1993.

A necessidade de aperfeiçoamento e efetividade no cumprimento dos misteres constitucionais do Ministério Público, também no que concerne à defesa da ordem jurídica e do regime democrático, está a exigir a preservação e consolidação de suas autonomias. E é com a certeza de que o Parlamento rio-grandense saberá, como é de sua tradição, atentar para essa necessidade, que me permito trazer alguns dados objetivos que retratam a participação da instituição na busca de uma sociedade mais justa e solidária.

Relativamente à área criminal, o que se verificou no período abordado nesse relato foi uma substancial diminuição do número de inquéritos policiais relativamente ao ano de 1995. Tal redução, contudo, explica-se pela entrada em vigor da Lei nº 9.099/95, que criou os Juizados Especiais Criminais e eliminou, nos feitos por ela regulados, o inquérito tradicionalmente elaborado.

Assim, dos mais de 40.000 inquéritos computados no ano de 1995, apenas 19.062 deram origem a ações penais em 1996. No entanto, o Ministério Público recebeu, neste último período, 103.581 termos circunstanciados, todos versando ilícitos penais de menor potencial ofensivo. Verificou-se, no tocante aos julgamentos pelo Tribunal do Júri, nova queda no número de julgamentos, fato que já se verificara em 1995. Dos 1.313 réus julgados, 912 restaram condenados, tendo sido absolvidos 401.

Os crimes contra a ordem tributária continuam merecendo tratamento cuidadoso do Ministério Público, que mantém, para o combate à sonegação fiscal, um setor específico e especializado. Da integração do trabalho do Centro de Apoio das Promotorias Criminais com a atuação dos Promotores de Justiça por todo o interior do Estado, resultou a instauração de 106 novos processos criminais.

Frise-se aqui que, neste ano, firmamos um novo Protocolo de Intenções com a Secretaria da Fazenda, lá está a atuar uma promotora de Justiça, analisando "in loco" as questões relativas ao denominado Direito Penal Tributário.

No campo do Direito de Família e Sucessões, o Ministério Público interveio em 140.069 feitos, dos quais 23.146 relativos a habilitações de casamento. Na condição de autor de medidas judiciais envolvendo tal matéria, foram ajuizadas 1.426 ações.

Considerável incremento se verificou na atuação da Instituição em matéria eleitoral. As 7.094 intervenções computadas no ano de 1995 cresceram, em 1996, para 9.235, tendo sido ajuizadas, no mesmo período, 75 ações penais por crimes eleitorais. Neste particular, verificou-se considerável redução relativamente ao ano de 1995, em que 250 ações penais foram propostas, a demonstrar o amadurecimento e em conscientização proporcionados pelo exercício continuado do direito de votar.

Os direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos continuam a merecer especial atenção do Ministério Público, que promoveu mais de 250 ações civis públicas para defesa do meio ambiente, do consumidor, do patrimônio histórico, dentre outras.

A área da infância e juventude, prioridade absoluta tanto na Constituição Federal quanto no Estatuto da Criança e do Adolescente, mereceu especial atenção do Ministério Público em 1996.

Realizamos audiência pública sobre a prostituição infanto-juvenil, seguida de painéis multidisciplinares versando sobre abuso sexual, políticas de atendimento e trabalho infantil.

Em nível estadual, foi desenvolvido extenso trabalho sobre a proibição de bebidas alcoólicas a crianças e a adolescentes, sendo que, somente em Porto Alegre, mais de 6.000 notificações foram expedidas a bares, a restaurantes, a clubes e a supermercados, alertando sobre as disposições legais pertinentes. A repercussão do trabalho deu-se em nível nacional, através do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais de Justiça.

Houve, ainda, recomendação aos promotores de Justiça para a instauração de inquérito civil público sempre que detectados casos de não-criação ou de não instalação dos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente e dos Conselhos Tutelares.

Na área do ato infracional, os números retratam praticamente uma repetição do que se verificou no ano de 1995, tendo havido 5.487 representações pela prática de ato infracional, tendo sido aplicadas medidas sócio-educativas a 4.913 adolescentes. Além disso, foram concedidas 5.237 remissões, com o que permanece inalterado o alarmante número de crianças e adolescentes envolvidos em infrações penais.

Em todo o território gaúcho, os membros do Ministério Público atenderam, em gabinete, 108.772 pessoas. Sempre que possível, os conflitos de interesses são dirimidos na esfera extrajudicial, pela realização de acordos entre as partes.

Nos tribunais de Justiça, de Alçada, Militar, Tribunal de Contas e Junta Comercial, os procuradores de Justiça emitiram nada menos do que 36.439 pareceres, além do atendimento às sessões de julgamento.

Em consonância com o trabalho desempenhado pelo Ministério Público junto ao Tribunal de Contas, como fiscal da lei, a Procuradoria de Prefeitos analisa a conduta de prefeitos municipais nos procedimentos que lhe são encaminhados por aquela Corte. Em decorrência de criteriosa análise foram ajuizadas 114 ações penais contra prefeitos, - esse é um dado que prova salientar, e arquivados 120 expedientes. Significa que o número de arquivamentos foi maior que o número de processos.

Deve-se salientar, no particular, o cuidado com que a Procuradoria de Prefeitos, órgão do Ministério Público analisa essas questões, a fim de que nenhuma ação penal seja instaurada sem que os pressupostos técnicos estejam presentes, pois como se sabe, disputas e intrigas políticas muitas vezes dão azo à formulação de representações objetivando a responsabilização criminal de adversários. O Ministério Público, como não poderia deixar de ser, mantém posição absolutamente neutra e aprecia todas as questões que lhe são submetidas de forma eminentemente técnica, segundo os ditames da Constituição e das leis.

A Corregedoria-Geral do Ministério Público, órgão da administração superior e que hoje tem como Corregedor-Geral o Dr. Carlos Otaviano Brewer de Moraes, presente nesta Casa legislativa, neste momento, inspeciona, orienta, e disciplina as atividades dos membros da instituição, tendo elaborado e ministrado no ano de 1996, 5 cursos de orientação aos novos Promotores de Justiça empossados no decorrer do período. Além disso, no campo disciplinar, realizou 24 pré-sindicâncias, número que, somado ao de inspeções e correções realizadas em todo o território do Estado, eleva-se para 77.

A fim de manter detalhado controle acerca das atividades dos órgãos agentes do Ministério Público, a Corregedoria-Geral apreciou mais de 5.000 relatórios encaminhados pelos Promotores de Justiças, dos quais 1.219 sobre a atuação específica no Tribunal do Júri.

Cresce cada vez mais o número de recursos interpostos das decisões de primeiro grau de jurisdição, tendência que se mantém ao longo dos anos e que se acentua, de modo especial, na área dos recursos de índole extraordinária, quer para o Superior Tribunal de Justiça, quer para o Supremo Tribunal Federal. E, talvez, aqui, esteja um dos grandes problemas que, hoje, todos estão a lamentar: a morosidade de determinados procedimentos.

Nesse particular, a atuação processual do Procurador-Geral de Justiça, desempenhada por sua assessoria jurídica, sofreu crescimento da ordem de cem por cento. No ano de 1995, foram emitidos pareceres em 2.066 recursos especiais e extraordinários, contra 4.100 no ano de 1996.

No controle da constitucionalidade das leis, o chamado controle concentrado e difuso, atribuição de grande relevância para a defesa da ordem jurídica, foram impugnadas 214 leis, em sua grande maioria municipais, tanto por meio de ações diretas de inconstitucionalidade como de incidentes de inconstitucionalidade.

A síntese da atuação do Ministério Público do Rio Grande do Sul está retratada no Relatório sobre o Desenvolvimento Humano no Brasil, de 1996, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que conceitua nossa instituição como um exemplo a ser seguido pelos demais Estados da Federação. Esse é um dado extremamente gratificante não só para quem atua no Ministério Público, mas, acima de tudo, para quem é brasileiro e gaúcho, porque, via de regra, esses relatórios internacionais, costumeiramente, costumam tecer sérias críticas às nossas instituições.

O presente relatório, que submeto a V. Exas., evidentemente não esgota todas as atividades do Ministério Público. Caminhamos de forma a construir uma instituição forte, a fim de bem servir à sociedade. Por isso, foi implantado e levado a cabo o Programa de Gestão de Qualidade Total, com palestras realizadas em todo o Estado do Rio Grande do Sul, bem como pesquisas para a identificação dos anseios, dos problemas e das dificuldades enfrentadas pelos membros do Ministério Público.

De outro lado, para obter um diagnóstico dos principais anseios da comunidade, efetuamos audiências públicas em diversos pontos do território gaúcho, colhendo informações e dados a fim de estabelecer prioridades de acordo com a vontade popular. E buscando o aperfeiçoamento da atuação do Ministério Público na efetiva defesa da sociedade, realizamos pesquisa de opinião pública denominada "Prioridades da População Gaúcha" que agora está sendo entregue a V. Exas. juntamente com este relatório, para que os Senhores possam ter todos os elementos necessários para uma avaliação sobre as questões que dizem muito de perto com os interesses gerais da sociedade.

Gostaria de salientar que, a partir da folha 39 do relatório, há uma série de projetos desenvolvidos pelo Ministério Público no campo extraprocessual. Via de regra, a atuação dos lidadores do Direito - e esta era a idéia antiga - estava restrita ao processo. Procuramos inovar a respeito, fazendo com que o Ministério Público chegasse à sociedade por inúmeras medidas - como aqui está colocado: o Projeto Cidadania, questões de saúde pública, consultas plebiscitárias, Operação Ar Puro, agrotóxicos, mineração, fornos de carvão, poluição industrial, queimadas, problemas em olarias, loteamentos irregulares, esgotos, desmatamentos, enfim, há uma série de itens arrolados. Persistem, contudo, as carências de recursos pessoais e materiais decorrentes da limitada verba orçamentária que toca à instituição, aspecto para o qual solicito, mais uma vez, a compreensão desta augusta Casa.

No momento em que apresento este relatório, já no ocaso de minha gestão à frente do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, não posso olvidar o público reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelo Procurador de Justiça, Lênio Luiz Streck a testa da Assembléia Legislativa da Procuradoria-Geral de Justiça. Não apenas na elaboração de anteprojetos, de estudos, de análises e de pareceres, como também no acompanhamento dos trabalhos desta Casa, sem jamais esmorecer tudo deu de si, para que o Poder Legislativo do Estado do Rio Grande do Sul e o Ministério Público coexistissem harmonicamente, num clima de respeito e de cordialidade.

Entretanto, por ter assumido novas funções, inclusive tendo sido eleito para integrar o Conselho Superior do Ministério Público, deixou esta importante atividade. Em seu lugar, assumiu a ilustre Procuradora de Justiça Zuleika Pinto Costa Vargas, que continua a desenvolver, com a mesma competência, o excelente trabalho realizado pelo Dr. Lênio Streck.

Senhoras e Senhores, venho a esta Casa pela derradeira oportunidade na condição de procurador-geral de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, eis que meu mandato encerra-se em poucos dias. Quero aqui fazer um registro muito especial. Durante esse período, fiz grandes amizades entre os parlamentares. Conheci muitos, alguns nesta Casa, outros em meu gabinete, outros em solenidades. Sempre estabeleci como tratamento indispensável a Sras. e aos Srs. Parlamentares o meu inequívoco propósito de ajudá-los na luta por um Estado melhor e, para tanto, todas as informações solicitadas pelos parlamentares foram atendidas. Talvez não tivesse dado aquele encaminhamento desejado nos termos em que eventualmente se estava a querer, porque, às vezes, a prova colhida num procedimento evidenciara que o posicionamento era outro.

Sempre agi de forma a atender todos os eminentes deputados, mesmo porque tenho a consciência de que estão aqui não a representar a si mesmos, mas a segmentos da sociedade e que, por isso não falam sozinhos, mas com a voz da coletividade, de uma representação bem definida e conseguida nas urnas.

Quero, portanto, nesta oportunidade, deixar a todos os Senhores o meu profundo reconhecimento pela amizade obtida, pelo convívio estabelecido e pela respeitabilidade que durante esse período, inegavelmente, estabeleceu-se. Sinto-me plenamente gratificado pela missão cumprida, ainda que com considerável sacrifício pessoal. Nesses últimos quatro anos, exerci minhas funções sem rancores e sem paixões, a não ser aquela que tenho devotado a minha instituição e a minha gente desde o longínquo mês de julho de 1980, quando fui nomeado e empossado promotor de justiça de primeira entrância.

Tenho lutado incessantemente pelo aperfeiçoamento do Estado de Direito Democrático como única forma de sobrevivência plena de nossa sociedade já tão sofrida pelas desigualdades e injustiças. Entendo ainda que o papel das instituições e dos poderes do Estado constituem-se em "munus" impostergável e ao mesmo tempo indelegável para que se realize o sonho de milênios, gravado na pedra bruta de Hamurabi, o príncipe dos príncipes, "de fazer surgir a justiça na terra para eliminar o mau e o perverso, para que o forte não oprima o fraco, para, como o sol, levantar-se sobre os homens e iluminar o país". Muito obrigado. (palmas)

O SR. PRESIDENTE JOÃO LUIZ VARGAS (PDT) - Por solicitação do Deputado Vieira da Cunha, concedemos a palavra a S. Exa.

O SR. VIEIRA DA CUNHA (PDT) - Sr. Presidente; Colegas Deputados; Exmo. Sr. Procurador-Geral de Justiça, Dr. Voltaire de Lima Moraes:

Em nome da bancada do PDT e também na condição de membro do Ministério Público, tendo sido emprestado a esta Casa, quero trazer o reconhecimento ao trabalho dedicado e competente do Ministério Público em favor dos interesses da sociedade gaúcha, tão bem demonstrado no relatório que ora V. Exa. traz ao conhecimento de cada um dos deputados desta Casa.

Não poderia deixar de aproveitar esta oportunidade, ao mesmo tempo em que cumprimento V. Exa., na condição de representante da Bancada do PDT e de Presidente da Comissão de Constituição e Justiça desta Casa, para fazer este justo reconhecimento ao trabalho dos membros da instituição do Ministério Público do Rio Grande do Sul no ano que passou. Também faço questão de deixar registrado nosso reconhecimento à dedicação, ao zelo, à competência profissional, à maneira resposável com que V. Exa. agiu à frente da instituição ao longo dos últimos quatro anos. Faço-o por dever de justiça, porque fui, tal qual cada um dos membros desta Casa, testemunha privilegiada da maneira altiva e independente com que V. Exa. sempre se houve na função de chefiar a instituição, função esta, aliás, que sempre conquistou pela vontade ampla e majoritária da classe, eis que esteve ponteando listas tríplices para a escolha final do Sr. Governador do Estado.

Receba, Sr. Voltaire de Lima Moraes, nossos cumprimentos não apenas pelo trabalho da instituição, mas permita-me que o cumprimente pessoalmente pelo zelo, pela dedicação e pela competência no exercício da relevante e nobre função de procurador-geral de Justiça. São essas as marcas que V. Exa. .deixa na instituição, marcas de zelo, da dedicação e da competência profissional. Nossos cumprimentos.

O SR. PRESIDENTE JOÃO LUIZ VARGAS (PDT) - Por solicitação do Deputado Alcides Vicini, concedemos a palavra a S. Exa.

O SR. ALCIDES VICINI (PPB) - Dr. Voltaire Lima de Moraes, em nome da Bancada do PPB, queremos parabenizá-lo, em primeiro lugar, pelo trabalho destacado que exerceu como procurador-geral de Justiça do Estado, pela sua figura inteligente e participativa, sempre marcando sua presença e a presença da entidade na imprensa do Estado com artigos extremamente procedentes na análise do momento que vivemos.

Parabéns, Dr. Voltaire de Lima Moraes, pelo seu trabalho, bem como ao Ministério Público pelo relato de suas atividades, aqui minuciosamente descritas. Como professor, gostaria de destacar o caráter didático dos gráficos apresentados, que conseguem transmitir, de forma objetiva, abrangente e pormenorizada, o trabalho desenvolvido.

Meus cumprimentos ao Ministério Público e a V. Exa. pelo exemplar desempenho à testa dessa instituição.

O Sr. Bernardo de Souza (PPB) - V. Exa. permite um aparte? (assentimento do orador)

Nas três vezes, durante meu modesto mandato, em que V. Exa. aqui esteve cumprindo a missão constitucional de prestação de contas da atividade da Procuradoria-Geral de Justiça, tive a alegria de poder fazer uso da palavra. E a repetitividade de minha manifestação, creia V. Exa., não é por falta de inspiração, mas a reafirmação de convicções solidamente assentadas.

Disse, em toda as vezes - e repito hoje -, que minha convicção política de cidadão e de homem vinculado às lides do Direito é no sentido de que o Ministério Público, nos termos da Constituição federal, foi alçado a uma missão que lhe é adequada, o que torna a instituição da mais alta relevância na ordem institucional brasileira. Sem ser formalmente um poder, o Ministério Público tem a missão explícita, dentre outras, de, por exemplo, fazer a defesa do regime democrático, sem falar de suas múltiplas atribuições, históricas e tradicionais além das novas, pelos caminhos da ação civil pública , pela proteção ao meio ambiente, ao patrimônio histórico, aos interesses do consumidor e tantas outras.

Esta Casa, pelo menos durante o tempo que minha percepção alcança, tem tido - e continuará tendo - a maior disposição em assegurar as condições materiais, que sabemos que faltam ao Ministério Público, e que impedem, talvez, a afirmação cabal de sua grandiosa e justa missão.

Do ponto de vista pessoal, inseri em algum momento, no plano plurianual e nas Leis de Diretrizes Orçamentárias, disposições que prevêem a possibilidade de nomeação pelo Ministério Público de profissionais que possam assessorá-lo nas áreas em que atua e em que o homem ligado ao referido ministério não tem condições de chegar ao saber especializado e necessário, como nas questões concernentes ao patrimônio histórico e ao patrimônio ambiental.

Em nome da Bancada do Partido Socialista Brasileiro e em meu nome, reafirmo a nossa convicção de que é um bom caminho o que a ordem jurídica, a Constituição trilhou quando deu ao Ministério Público essa grande missão.

Sr. Procurador, tenho ainda o dever e o prazer de fazer uma referência de conteúdo mais pessoal no que tange a V. Exa. Quando arremata de maneira brilhante, competente e qualificada a gestão à frente da Procuradoria-Geral da Justiça - e sei que não é esta a razão da sua presença nesta Casa -, cumprimentamos V. Exa. pela maneira com que se houve no comando, na direção e na representação dessa instituição tão marcante e tão significativa para nós, gaúchos. Receba a nossa saudação formal e efetiva pela admiração por V. Exa.

V. Exa. abriu na sua manifestação uma citação a outro ilustre homem do Ministério Público, Dr. Lênio Streck. Concordamos com as referências elogiosas feitas ao trabalho de S. Exa., com quem temos ainda uma amizade pessoal.

Não há neste momento nada que possamos encaminhar à Procuradoria-Geral da Justiça em nome pessoal, a V. Exa. Entretanto, como a procuradoria é uma instituição que continua para além dos seus titulares, este é o instante de nós, além dos registros que fazemos com convicção e com prazer, em nome da Bancada do PSB, darmos a seguinte sugestão - e pedimos a V. Exa. que a repasse ao seu sucessor, fruto da votação democrática que a categoria produziu há poucos dias: vivemos um momento institucional tormentoso sob alguns aspectos. Uma das questões que mais aflige aqueles que olham a ordem institucional e jurídica com cuidado, com carinho e com atenção é a das medidas provisórias. Não quero aqui debater se elas devem ou não existir. A Constituição diz que elas existem e dá um pré-requisito que me parece muito amplo, mas que também não quero discutir aqui.

Há um momento na ordem constitucional, Sr. Procurador-Geral da Justiça, em que a Constituição é explícita e precisa: é o prazo de validade da medida provisória, que é de trinta dias, razão pela qual carregamos a mais absoluta convicção de que a reedição é uma flagrante violação da ordem constitucional, porque reeditar uma ou dez ou vinte vezes - e não estou fazendo juízos morais, tento fazer uma análise meramente jurídica - é violar a letra e o espírito da Constituição e a própria semântica, que diz que a medida é provisória.

Por isso, gostaria, em nome da nossa bancada, de sugerir e de solicitar à Procuradoria-Geral da Justiça, como já tem feito em outras iniciativas, que representasse a Procuradoria-Geral da República, por meio dos qualificados quadros de que dispõe, com a qualificada assessoria que tem, fundamentando uma representação ao Sr. Procurador-Geral da República para que esse promovesse a ação direta de inconstitucionalidade contra todas aquelas medidas provisórias que exacerbaram o tempo pelo caminho da reedição.

Tenho a impressão de que o Ministério Público do Rio Grande do Sul - e eu, como gaúcho, me sinto irmanado nessa iniciativa - estará dando um exemplo ao Brasil, tentando, quem sabe, construir um novo caminho na defesa da ordem jurídica e institucional.

Essa e uma sugestão que faço, comprometido que sou, sabe V. Exa., com a ordem democrática que o Ministério Público tem a votação constitucional para defender.

Depois de dizer o que penso da nobre instituição e da admiração que tenho por ela, após falar sobre o afeto que dispenso a V. Exa., apresentando ainda uma sugestão que penso ter cabimento, desejo fazer dois registros. O primeiro deles diz respeito à alegria desta Casa em ter presentes aqui dois homens do Ministério Público, que não pertencem ao nosso partido, mas com quem temos ótimas relações pessoais, sendo parlamentares que dignificam o Rio Grande do Sul, os Deputados Paulo Vidal e Vieira da Cunha. O povo deu à Assembléia dois homens públicos da maior qualidade, que trazem a marca de pertencerem ao Ministério Público.

O segundo registro que gostaria de fazer, se fosse possível, em voz baixa, e transcrito entre parênteses nos anais porque não quero que isso tenha o condão de desfazer tudo o que disse, porque não fere em nenhum momento a admiração pelo Ministério Público nem por V. Exa.

Nossa bancada, Sr. Procurador-Geral da Justiça, não concordou e, de certa maneira, até não entendeu por que o Ministério Público associou-se à representação ao Sr. Procurador-Geral da República contra a Emenda Constitucional nº 12, exatamente a Procuradoria-Geral de Justiça, instituição em que não havia e em que não há nenhum caso concreto, internamente, de emprego de parentes. Com toda a franqueza que posso expressar, quero dizer, sem querer suscitar polêmica, que não concordo com isso e que não entendo por que a Procuradoria-Geral de Justiça associou-se contra uma medida que o Rio Grande aplaudiu e que o Supremo Tribunal Federal recentemente sancionou.

Não estou querendo produzir um debate, mas estaria sendo, de certa maneira, desonesto com nossa bancada, comigo mesmo e com V. Exa., por quem tenho grande apreço, se não registrasse esse aspecto aqui. Que predomine nosso respeito pelo Ministério Público, nosso respeito e afeição por V. Exa. e a solicitação de uma representação contra as medidas provisórias. O resto fica apenas como registro que temos que fazer, neste momento, por dever de honestidade.

O SR. VOLTAIRE DE LIMA MORAES - Sr. Presidente, desejo responder ao Deputado Bernardo de Souza, já que foi feita uma solicitação e ao mesmo tempo um questionamento.

Com relação à questão das medidas provisórias, hoje ainda determinarei que seja feito um estudo a respeito desse tema pela minha assessoria. Segunda-feira, inclusive, deverá estar em Porto Alegre, para a última reunião do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais de Justiça, que atualmente está sob minha presidência, o Procurador-Geral da República, Dr. Geraldo Brindeiro. Passarei a ele suas preocupações.

No que se refere ao segundo ponto, ao ataque à emenda que foi referida, devo dizer que a preocupação do Ministério Público - e ele formalizou a representação nos termos constitucionais e legais ao Sr. Procurador-Geral da República - deu-se justamente porque uma das questões que dizia muito respeito ao Ministério Público, como também ao próprio Executivo, no sentido mais amplo, ao Legislativo e a outras instituições, não se relacionava ao chamado nepotismo, mas dizia respeito aos cargos técnicos, já que a emenda dispunha e dispôs sobre outras questões além do nepotismo.

Nesse sentido, o Ministério Público agiu e representou, tanto é que o Supremo Tribunal Federal, nesse ponto, deferiu a liminar.

Era o esclarecimento que gostaria de prestar ao Deputado Bernardo de Souza. S. Exa. tem-se constituído, durante o período em que nos conhecemos, um grande lutador e, acima de tudo, alguém seriamente preocupado com o aperfeiçoamento das instituições no próprio regime democrático. Faço este registro a título de esclarecimento e de consideração não somente a S. Exa., mas a sua bancada e aos demais parlamentares.

O SR. PRESIDENTE JOÃO LUIZ VARGAS (PDT) - Por solicitação do Deputado Valdir Fraga, concedemos a palavra a S. Exa.

O SR. VALDIR FRAGA (PTB) - Dr. Voltaire de Lima Moraes, os nossos cumprimentos a V. Exa., em nome da Bancada do PTB, pelo relatório anual, bem como à sua equipe de trabalho e aos demais procuradores do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

V. Exa. pode ter certeza de que, como Procurador-Geral da Justiça, honrou nossas tradições. A sua falta vai ser muito sentida mesmo que o próximo procurador venha a desenvolver um grande trabalho. Nossa amizade vem de encontros em alguns eventos, oportunidades que me levaram a respeitá-lo e admirá-lo pela postura sempre assumida. Queira Deus que V. Exa. continue conosco, amigo, honrando as tradições do Rio Grande do Sul. Meus cumprimentos e agradecimentos por tudo.

O SR. PRESIDENTE JOÃO LUIZ VARGAS (PDT) - Por solicitação do Deputado Paulo Vidal, concedemos a palavra a S. Exa.

O SR. PAULO VIDAL (PSDB) - Sr. Procurador de Justiça, Dr. Voltaire de Lima Moraes, quero, em nome da Bancada do PSDB e em meu nome próprio, cumprimentar V. Exa. pelo relatório apresentado, saudação extensiva a todos os membros do Ministério Público, instituição da qual tenho muito orgulho de pertencer. Também quero cumprimentar pessoalmente V. Exa., que chega a fim de seu mandato, depois de uma recondução para o cargo, legitimamente, por meio de voto da classe do Ministério Público, em uma gestão coroada de êxitos, o que dignifica aquela instituição e que a mantém ao lado dos ministérios públicos estaduais, como daqueles que lideram dentro da Nação Brasileira.

Creia que, por parte da sociedade do Rio Grande do Sul, existe a consciência da fundamental importância do trabalho do Ministério Público. Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE JOÃO LUIZ VARGAS (PDT) - Por solicitação do Deputado Flávio Koutzii, concedemos a palavra a S. Exa.

O SR. FLÁVIO KOUTZII (PT) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados e Dr. Voltaire de Lima Moraes:

A manifestação da Bancada do Partido dos Trabalhadores não poderia ser outra senão a de saudá-lo muito especialmente.

Pela experiência que acumulamos nesta Casa, pelo aprendizado institucional que realizamos, pelos desafios permanentes que o controle da coisa pública impõe a cadas um de nós, reconhecemos o trabalho fundamental do Ministério Público e não podemos deixar de elogiá-lo.

Neste País, é muito difícil consolidar instituições e preservá-las, como é difícil dar a elas a coragem sem que não teriam sentido de existência. Na gestão de V. Exa. o Ministério Público cresceu, individualizou-se, confirmou aquilo que é a sua convocação constitucional e institucional. Portanto, não se trata de um agradecimento ou de uma referência de praxe; trata-se de um profundo reconhecimento do trabalho realizado, que, evidentemente, apresenta carências em todos os níveis, desde falta de pessoal, falta de recursos, há dificuldades de que o conjunto do sistema de fiscalização da coisa pública opere de forma convergente, eficaz e não burocrática.

Não há dúvidas de que a gestão de V. Exa. avançou, de que o seu trabalho foi profícuo e, ao reconhecê-lo, o faço realmente com uma profunda convicção não somente em nome da nossa bancada, mas em meu nome pessoal. Em inúmeras oportunidades, precisei recorrer ao Ministério Público e tive dele a resposta que a sociedade precisa. Meus parabéns e boa sorte.

O SR. PRESIDENTE JOÃO LUIZ VARGAS (PDT) - Por solicitação do Deputado Paulo Odone, concedemos a palavra a S. Exa.

O SR. PAULO ODONE (PMDB) - Sr. Presidente, meu caro Procurador-Geral, Dr. Voltaire de Lima Moraes, é quase repetitivo dizer o óbvio expressado pela unanimidade desta Casa através das lideranças de todas as suas bancadas. De minha parte, há um reconhecimento não apenas pessoal, de caráter efetivo, pelo convívio estabelecido nos anos do seu mandato, mas do respeito adquirido pelo Ministério Público perante a sociedade gaúcha.

Esta Casa teve no Ministério Público um parceiro de grande valor nos momentos delicados que vivemos aqui. Um exemplo disso, entre outros, ocorreu na Legislatura passada, em um delicadíssimo episódio ocorrido durante uma CPI. Tivemos sempre confiança na instituição do Ministério Público, e muito disso deveu-se a forma profissional e eficiente com que V. Exa. cumpriu sua gestão.

Não desejo apenas repetir elogios, mas deixar fortemente registrado, de parte da Bancada do PMDB e de forma pessoal, que, nesses dois anos, como líder do governo, não tratei apenas com a corporação Ministério Público mas que mantive entendimento com seu representante, V. Exa., que justamente zelava pela sua principal missão: a de consolidar a cidadania por todos almejada, principalmente a partir da Constituição de 1988.

Sendo assim, não quero fazer apenas um elogio gratuito, como parlamentar e como amigo conquistado ao longo desses quatro anos, mas salientar que o Poder Legislativo, se assim posso traduzir esse sentimento, tem a maior admiração pelo seu trabalho. V. Exa. levará em seu currículo o fato de ter podido em muito ajudar na consolidação do respeito adquirido pelo Ministério Público, sem o qual este Poder, o Poder Executivo e o Poder Judiciário teriam os braços atados. Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE JOÃO LUIZ VARGAS (PDT) - Por solicitação do Deputado José Gomes, concedemos a palavra a S. Exa.

O SR. JOSÉ GOMES (PT) - Dr. Voltaire de Lima Moraes, as palavras do Líder da Bancada do Partido dos Trabalhadores espelha o sentimento de cada um de seus componentes.

A observação que farei diz respeito a um dado constante em seu relatório, na página 36. Ali consta um gráfico, sem número, a respeito da ação dos procuradores de Justiça junto ao Tribunal Militar. Proponho a V. Exa. que nos próximos relatórios do Ministério Público sejam incluídos nas atividades de processos não somente os processos criminais que chegam até o Ministério Público, mas também os de ordem disciplinar, que o próprio Ministério Público encara como crime, para que a sociedade saiba como os servidores militares ainda são tratados pela Justiça Militar do nosso Estado.

O SR. VOLTAIR DE LIMA MORAES - A solicitação de V. Exa. ficará registrada, Deputado José Gomes.

O SR. PRESIDENTE JOÃO LUIZ VARGAS (PDT) - Agradecemos a manifestação do eminente Dr. Voltair de Lima Moraes, nosso Procurador-Geral de Justiça, e as dos Srs. Deputados.

Declaramos encerrada a presente sessão, convocando os deputados para a Sessão Extraordinária a ser realizada a seguir.

(Levanta-se a sessão às 15h30min.)

Estiveram presentes a esta sessão os seguintes parlamentares:

Bancada do PPB: Srs. Deputados Adolfo Brito; Alcides Vicini; Arno Frantz; Erni Petry; João Fischer; José Alvarez; Maria do Carmo; Rubens Pillar; Valdir Andres; Vilson Covatti; Westphalen Corrêa; Wilson Mânica.

Bancada do PMDB: Srs. Deputados Alexandre Postal; Antonio Barbedo; Giovani Feltes; Gleno Scherer; Jair Foscarini; João Osório; José Ivo Sartori; Paulo Odone; Quintiliano Vieira.

Bancada do PTB: Srs. Deputados Aloísio Classmann, Bruno Neher; Divo do Canto; Edemar Vargas; Eliseu Santos; Valdir Fraga.

Bancada do PDT: Srs. Deputados Ciro Simoni; Giovani Cherini; Heron de Oliveira; João Luiz Vargas; Kalil Sehbe; Paulo Azeredo; Valdir Heck; Vieira da Cunha.

Bancada do PT: Srs. Deputados Cecilia Hypolito; Elvino Bohn Gass; Flávio Koutzii; José Gomes; Luciana Genro.

Bancada do PSB: Srs. Deputados Bernardo de Souza; Beto Albuquerque; Maria Augusta Feldman.

Bancada do PL: Sr. Deputado Onyx Lorenzoni.

Bancada do PSDB: Sr. Deputado Paulo Vidal.